MORUMBI

30 anos do bicampeonato brasileiro: De Dinamite como rival à arrancada, saga do Vasco traz grandes histórias

30 anos do bicampeonato brasileiro: De Dinamite como rival à arrancada, saga do Vasco traz grandes histórias
A peregrinação do Vasco até a volta olímpica pelo bicampeonato brasileiro, ocorrida no Morumbi em um 16 de dezembro de 1989, trouxe ingredientes curiosíssimos. O dia 21 de outubro mexeu com os corações de torcedores e jogadores: pela primeira vez, Roberto Dinamite pisava o gramado de São Januário como adversário cruz-maltino. - Eu estava cumprindo…


A peregrinação do Vasco até a volta olímpica pelo bicampeonato brasileiro, ocorrida no Morumbi em um 16 de dezembro de 1989, trouxe ingredientes curiosíssimos. O dia 21 de outubro mexeu com os corações de torcedores e jogadores: pela primeira vez, Roberto Dinamite pisava o gramado de São Januário como adversário cruz-maltino.

– Eu estava cumprindo suspensão automática, e assisti ao jogo da arquibancada. Roberto sempre foi um ídolo para nós, uma referência, aquele foi um dia muito difícil – revelou Bismarck, ao LANCE!.

Dinamite (que começou nos profissionais do Vasco em 1971 e só saiu da Colina em 1980, para uma breve passagem pelo Barcelona) agora era o camisa 10 e a esperança de gols da Portuguesa comandada por Antônio Lopes.

– Eu convivia com algumas lesões desde o ano anterior e passei a ser preterido no Vasco. O técnico preferia dar chances a jovens o Sorato, o Sonny Anderson… Foi quando surgiu a proposta de jogar na Portuguesa. Gostei, foi uma oportunidade muito legal. A Lusa tinha um time muito bom, com o Lira, Toninho, Biro-Biro, Jorginho, que era meu colega de ataque. E depois subiram os garotos, o Dener, o Sinval… – relembrou-se Roberto.

Porém, o eterno ídolo não esconde que a iminência de encarar o Vasco lhe rendeu momentos de tensão.

– Foi uma experiência muito difícil. Na noite anterior ao jogo, tive febre, devido ao meu emocional. Mesmo assim, fui para o campo. Esperava vaias, só que a torcida me tratou muito bem, gritou meu nome – contou o atacante, que ainda recordou-se de uma das chances de estufar a rede:

– Eu não esqueço! O Toninho meteu uma bola na qual eu iria ficar de frente para o Acácio. Na hora, pensei: “pô, vou fazer o gol”. So que, ao fazer o movimento com o corpo, eu caí e tive a impressão que fui derrubado. Quando levantei é que vi que não tinha ninguém. Eu me derrubei! (risos). Quando fomos para o vestiário no intervalo, todo mundo me cobrou: “p…, o que é que houve? Você estava na cara do gol!”. E eu não tinha como explicar, eu tinha me caído sozinho! – completou, entre risos.

Vasco e Portuguesa não saíram do 0 a 0. Ao fim do jogo, Roberto Dinamite chegou a desabafar para a imprensa: “”Eu não digo que foi uma tarde especial. Eu não gostaria de ter essa tarde”. Porém, 30 anos depois, o ídolo é taxativo.

– É, foi um dia muito atípico. Mas faz parte da carreira de um jogador – disse.

Acácio não esconde que o jogo contra a Portuguesa teve um fator emocional a mais.

– Por mais que a gente saiba que são coisas do futebol, é difícil ver o ídolo de um clube do outro lado. Posso imaginar o quanto foi complicado para o Roberto. Ainda bem que ficou 0 a 0 – afirmou.

BOM PRESSÁGIO…

Acácio pega pênalti logo na estreia cruz-maltino (Reprodução / TV Globo)

O primeiro passo do Cruz-Maltino no Campeonato Brasileiro foi bastante promissor. A equipe vencia o Cruzeiro por 1 a 0 no Mineirão quando, nos últimos minutos, o árbitro Davi Aveiro marcou pênalti discutível de Acácio em Hamilton. Mas, na cobrança, o camisa 1 voou e defendeu.

– Aquele jogo trouxe uma boa arrancada para nós. Primeiramente, porque jogar no Mineirão era muito difícil, o gramado era muito irregular – e, em seguida, o goleiro contou o que pesou para manter o sangue frio na marca de cal:

– Muitos dos meus treinadores, desde o dente de leite, tinham sido goleiros. Acho que isto foi fundamental para que eu seguisse minha carreira em alto nível – completou.

MARES REVOLTOS

‘Estreei num jogo difícil, contra o Santos, na Vila, mas a equipe funcionava muito bem’, diz Bebeto (Arquivo)

A caravela cruz-maltina ganhou uma dose a mais de expectativa com a estreia de Bebeto. Logo em seu primeiro jogo (na terceira rodada do Brasileiro), o Vasco arrancou uma virada por 2 a 1 sobre o Santos.

– Estreei num jogo difícil, jogar contra o Santos lá na Vila Belmiro, era bem desafiador. Mas a gente tinha uma equipe que funcionava muito bem – diz Bebeto.

Entretanto, a equipe comandada por Nelsinho Rosa passou por mares revoltos. Houve tropeços em jogos no Maracanã e, segundo Bismarck, um clássico surgiu como sinal de alerta.

– A partida contra o Flamengo foi um baque para nós. Antes do jogo, se falava muito na imprensa e entre os torcedores que a gente ia ganhar fácil, subestimavam Zico e Júnior… Nós sabíamos que estávamos melhores tecnicamente e podíamos vencer. A derrota (por 2 a 0, com dois gols de Bujica) ficou como um aprendizado para crescermos novamente.

Aos poucos, Bebeto (que foi expulso na partida contra o Rubro-Negro) ainda lidou com lesões. Mas soube reagir em campo.

DA SUPERAÇÃO FORA DE CASA À TENSÃO PELA VAGA NA FINAL

Sorato: do banco de reservas para se firmar como decisivo (Arquivo)

A luta pela vaga na decisão do Campeonato Brasileiro contou com requintes de dramaticidade para o Vasco. A equipe mediria forças na reta final com Corinthians e Internacional, ambos fora de casa. E o Cruz-Maltino ainda tinha como concorrente direto o Palmeiras.

– Lembro que os matemáticos diziam que nossas chances eram mínima. Mesmo assim, a gente foi confiante em fazer nossa parte. O time era muito unido, sem vaidade – declarou Marco Antônio Boiadeiro.

Sem Bismarck, suspenso pelo terceiro cartão amarelo, o técnico Nelsinho Rosa recorreu a um nome que ficou guardado na memória do torcedor vascaíno: Sorato.

– Eu vinha no banco durante a competição e acabei sendo titular na reta final. Lembro que entrei em um jogo, acho que faltavam dez minutos, contra o Botafogo, no Maracanã. Estávamos perdendo de 2 a 1 e eu fiz o gol de empate. Se perdêssemos ali, poderia complicar a briga de vez pela final. Aí, contra o Corinthians, ganhamos por 1 a 0 e eu fiz o gol – recordou-se o atacante.

Por coincidência, o jogo, disputado em 3 de dezembro, também aconteceu no Morumbi, e coube a Luiz Carlos Winck dar o passe para Sorato concluir no mesmo gol no qual balançaria a rede são-paulina em 16 de dezembro de 1989.

Ao fim da partida, Zé do Carmo falou sobre a combinação de resultados necessária para o Cruz-Maltino chegar à final. Ciente de que, além de vencer o Inter, a equipe precisava os corintianos triunfassem sobre o Palmeiras, o jogador foi categórico: “desta vez, sou Timão desde o maternal, meu amigo”.

‘Dei um toquinho e consegui marcar o segundo gol’, afirma Bebeto (Arquivo)

No Beira-Rio, contra o Internacional, a equipe manteve sua postura ofensiva, mesmo com uma formação diferente.

– O Tita se machucou e, quando o Bismarck voltou, eu fiquei como titular no ataque com o Bebeto – recordou-se Sorato.

Outro obstáculo veio muito além das quatro linhas.

– O estádio estava até bem vazio, mas estava um calor infernal na partida. E ainda tinha aquela pressão se a gente não ganhasse – afirmou o ponta Tato.

Bismarck também não esconde que o jogo ganhava proporções maiores, apesar do Colorado já estar eliminado na competição.

– O fato da gente depender do jogo entre Corinthians e Palmeiras dava ansiedade. Mas veio o Bebeto e fez a diferença para nós – disse.

O camisa 9 cruz-maltino recordou-se de sua tarde inspirada e, mais uma vez, decisiva.

– Meu primeiro gol foi lindo, né? Aquele de voleio! O outro foi mais na raça, no qual fui levando, levando, levando e, na saída do goleiro (Ademir Maria) dei um toquinho que garantiu a vitória – disse o craque.

Zé do Carmo vê no segundo gol de Bebeto uma vitória pessoal do atacante.

– Ele vinha com uma dor em um músculo e não conseguia esticar a perna daquele jeito. Para nós, foi maravilhoso duplamente – destacou o volante.

Garantida a vitória por 2 a 0 sobre o Internacional, coube ao elenco lidar com uma nova ansiedade.

– Ficamos na descida do túnel, esperando o fim do jogo entre Corinthians e Palmeiras. Foi uma comemoração e tanto – revelou Acácio.

Com gol de calcanhar marcado por Cláudio Adão, os corintianos garantiram a vitória por 1 a 0. Aos olhos de Luiz Carlos Winck, a ida para a final consolidou o trabalho do Gigante da Colina.

– Tínhamos obrigação de vencer todas as partidas e, ao mesmo tempo, torcer por tropeços de outros adversários. Fizemos a nossa parte com tanta determinação que tivemos muito sucesso nessa reta final – contou.

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