CARLOS AUGUSTO

As histórias de profissionais afetados por mudanças no mercado de trabalho devido ao coronavírus

As histórias de profissionais afetados por mudanças no mercado de trabalho devido ao coronavírus
Em um contêiner de ferro, Leandro dos Santos Prudêncio, de 35 anos, organiza sacos de cimento, galões de tinta, pregos e espátulas — materiais utilizados na construção do mais novo hospital de Porto Alegre, destinado a pacientes com covid-19. Para Prudêncio, a obra entregou o que, há dois anos, o catarinense não via em sua…

Em um contêiner de ferro, Leandro dos Santos Prudêncio, de 35 anos, organiza sacos de cimento, galões de tinta, pregos e espátulas — materiais utilizados na construção do mais novo hospital de Porto Alegre, destinado a pacientes com covid-19. Para Prudêncio, a obra entregou o que, há dois anos, o catarinense não via em sua carteira de trabalho: um registro formal de emprego.

O profissional da construção civil — que por uma década trabalhou na área de informática, na qual tem formação técnica — faz parte de um grupo restrito que voltou ao mercado através de oportunidades surgidas em meio à crise do coronavírus.

— Quando avisaram que eu ia ser contratado fiquei muito feliz. Imagina, tive uma oportunidade em meio à crise dessa essa doença. Mudou a minha expectativa de vida — relembra.

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Sua história, no entanto, vai na contramão dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados na última quarta-feira (27) pelo Ministério da Economia. Quarto pior resultado do país, atrás de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, o RS perdeu 74.686 vagas de emprego com carteira assinada em abril, saldo entre demissões e contratações no mês.  

Por um mês, o morador de Jaguaruna trocou Santa Catarina pela capital gaúcha, distante 300 quilômetros. Contratado pela Brasil ao Cubo, foi designado para a força-tarefa que ergueu, em 30 dias, o hospital destinado a pacientes com sintomas da covid-19. Com investimento de R$ 10,4 milhões, a estrutura foi viabilizada por uma parceria entre Gerdau, Ipiranga, Zaffari e Hospital Moinhos de Vento. O caráter do prédio construído a partir de suas mãos redobra o sentimento de felicidade:

— O meu trabalho vai ajudar a salvar vidas — avalia.  

No Estado vizinho, a esposa de Prudêncio perdeu o emprego. Com ajuda de parentes — e agora, com o primeiro salário do marido —, ela mantém a casa e os filhos. Já a saudade entre a família é amenizada pela tecnologia.  

— Eu faço ligação de vídeo todos os dias pra eles. A gente sente falta, mas a esperança de melhorar de vida, com um emprego, ajuda a superar essa saudade. Estar trabalhando me completa — conta.  

Como o contrato firmado não tem data de encerramento, a Brasil ao Cubo seguirá com Pruduêncio em seu quadro funcional. Entre Porto Alegre e São Paulo — seu próximo destino —, uma parada obrigatória é programada: ver a família, mesmo sem poder abraçá-los como deseja.  

De vendedor a pizzaiolo  

Newton encontrou nova oportunidade: virou pizzaiolo em um estabelecimento de seu amigoFoto: Lauro Alves / Agência RBS

Mudança de ares também foi o que ocorreu com Newton de Oliveira Pereira, 34 anos. Experiente vendedor, o morador do bairro Jardim Itu-Sabará estava prestes a ser contratado por uma loja em um shopping da Zona Norte. Um dia após ser aprovado na entrevista de emprego, porém, os centros comerciais tiveram o fechamento decretado na Capital. E, com isso, o acordo entre Pereira e a empresa foi desfeito. 

Somente com a renda da esposa — administradora, que segue em home office — e as contas acumuladas, ele aceitou o convite do amigo de infância e colega de escola, Rafael Lima dos Reis, 34 anos: auxiliar na fabricação de pizzas congeladas, demanda que aumentou com o distanciamento social e atualmente, é o principal negócio da pizzaria.  

— A gente vivia basicamente de eventos, assando a pizza no local da festa. Da noite pro dia fiquei sem nenhum cliente. Mas não adianta chorar. Investi em divulgação (das pizzas congeladas) e para dar conta dos pedidos eu chamei o Newton, que é de confiança — explica o empresário. 

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O suntuoso shopping center foi trocado por um pequeno espaço de não mais que 15 metros quadrados, na periferia. Cercado de temperos, o ex-vendedor sova a massa sobre uma mesa de inox e não economiza no queijo. Antes de ser embalada e levada ao freezer, a base é assada, o que facilita o processo para o cliente final, que tem apenas de aquecer a refeição. 

A nova atividade sequer era cogitada por Newton:

— Imaginei que iria continuar no comércio. Sempre gostei de cozinhar, eu e minha esposa nos dividimos no fogão, mas não pensei que seria meu emprego.

Mas, hoje, mesmo com a reabertura gradual do comércio, o mais novo pizzaiolo não pretende voltar ao ramo.  

— Eu moro aqui perto, trabalho com o meu melhor amigo e esto feliz — resume, enquanto retira do fogo a massa cozida.  

Os shoppings da Capital tiveram liberação para voltar a operar em 20 de maio, desde que obedeçam normas de segurança, como uso de máscara, distanciamento entre clientes e capacidade reduzida.  

Demissões no shopping center 

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Carlos Augusto dos Santos foi demitido após atuar por 13 anos no estacionamento do Shopping TotalFoto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Carlos Augusto dos Santos levou duas horas de ônibus até o Sine da Avenida Sepúlveda, no Centro Histórico de Porto Alegre. Na mochila, os documentos para dar entrada no auxílio do INSS — a terceira tentativa no mês. Há mais de uma década, o morador da área rural de Viamão não precisava dos serviços de apoio às pessoas desempregadas: foram 13 anos ininterruptos atuando no estacionamento do Shopping Total, no bairro Floresta. 

Com 230 mil demissões, o comércio foi o segundo setor que mais fechou postos de trabalho no Brasil em abril. No RS, a redução foi a terceira maior, atrás da indústria e do setor de serviços. Ao todo, 19,7 mil trabalhadores perderam o emprego no comércio gaúcho, de acordo com o Caged.  

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— Vou ter que procurar alguma coisa em Viamão mesmo. Uma pena, eu gostava de trabalhar lá (no Shopping Total).  

Sem carro, Carlos Augusto gastava, diariamente, R$ 24 em quatro viagens de ônibus.  

A casa de alvenaria é “popular”, como ele define, em uma região onde até as torres de telefonia celular são escassas. Solteiro, sem filhos, a maior preocupação na busca por um novo emprego é a idade: aos 48 anos, teme enfrentar dificuldades com a concorrência dos mais jovens. A fé, todavia, não desanima o homem que tem, no toque de espera do seu telefone celular, a música Felicidade, de Seu Jorge.  

— Tenho fé que vou conseguir — promete a si mesmo. 

Procurado na segunda-feira (1º), o Shopping Total não se manifestou até o fechamento desta edição. 

Mais de 23 mil demissões no setor aéreo

Fábio Goulart Santos aposta em sua experiência para retornar ao mercado de trabalhoFoto: Tiago Boff / Agência RBS

Enquanto o mundo fechava as fronteiras, as companhias aéreas viram o número de passageiros cair vertiginosamente. A procura por voos domésticos reduziu 93% em abril se comparado ao mesmo período de 2019 — o pior resultado mensal da série histórica da Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), iniciada em 2000. Os números são da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) e incluem dados das principais operadoras nacionais. Perdendo apenas para a indústria, o setor de serviços encerrou mais de 23 mil empregos em abril no RS.  

Com demanda em baixa, parte das terceirizadas que prestam serviço no aeroporto Salgado Filho reduziu o quadro — situação que atingiu diretamente Fábio Goulart Santos, 38 anos. Contratado em 2017, o morador do bairro Sarandi, em Porto Alegre, foi um dos demitidos, em cortes que chegam a 60% nas seis empresas que operam no terminal gaúcho, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Serviços Auxiliares do Transporte Aéreo (Abesata). 

— Meu gerente foi sincero, disse que o movimento caiu muito e que espera, quando voltarem os voos, me contratar novamente. Eu quero muito — explica.  

Fábio começou como auxiliar, no transporte de bagagens do check-in até o porão dos aviões, além de operar as escadas de acesso de passageiros às aeronaves. Quando dispensado, havia alcançado o status de líder, responsável pela lista de itens que precisam ser carregados em cada viagem. Eletrodomésticos, eletrônicos e móveis são transportados via aérea, segundo ele. Somado aos cinco anos em que trabalhou em outra empresa do aeroporto, o hoje desempregado profissional acredita que sua especialização será levada em conta após a retomada do setor. 

—  As empresas não precisam gastar com treinamento, só uma reciclagem, e isso vai me ajudar — afirma, confiante. 

No apartamento térreo, vivem ele, a esposa e a filha de nove anos. A mulher é operadora de caixa em um mercado do bairro. Aliado a previsão de pagamento de cinco parcelas do seguro desemprego, Fábio se demonstra otimista em dar conta das despesas de casa. 

— Me faz falta os vales alimentação e refeição. Um era R$ 400 e outro R$ 640. Mas a gente está bem — diz, com a cachorrinha pinscher Ariel no colo, ao lado de uma manta do Inter.  

Ouça a reportagem:

No valor de R$ 1.700, o seguro desemprego é 20% menor do que ele recebia mensalmente no trabalho de transporte das bagagens — fora os incrementos já citados, que ampliavam os vencimentos em mais de R$ 1 mil. 

Diretor-presidente da Abesata, Ricardo Aparecido Miguel alerta que a categoria presta um serviço especializado, essencialmente de mão de obra, com a mais baixa base salarial do transporte aéreo. 

— São pessoas que não tem um pé-de-meia para se segurar. De outro lado, as empresas estão fazendo esforço para manter o trabalhador especializado — analisa o ex-piloto. 

Antes das restrições a pousos e decolagens partiam, em média, 2.700 voos todos os dias no país, segundo a Abear. O presidente da associação, Eduardo Sanovicz, é otimista e acredita que o setor aéreo possa dobrar o número de voos nos próximos 30 dias.  

— Em abril passamos a operar a malha essencial, com 180 voos diários, o que corresponde a 8,5% da malha regular. Ao fim do mês de junho, queremos chegar a 350 por dia, alcançando 15% — calcula. 

Para o resto do ano, Sanovicz crê em “um crescimento lento, mas consistente”, dependendo diretamente de uma estabilidade nas moedas internacionais.  

— Não é possível prever em que tamanho chegaremos ao fim do ano. Como o setor de viagens de negócios vai se comportar? O turismo de lazer? E o câmbio, que impacta 51% dos nossos custos, como estará, ainda não sabemos. Somente com essas variáveis encaixadas é que poderemos definir — detalha.  

Enquanto busca uma nova oportunidade, o homem que deixou pra trás a bagagem dos viajantes busca qualificação, e pretendo fazer um curso de vigilante.  

— Preciso pensar o que fazer agora — reflete, ao mensurar outros voos na carreira. 

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