TORCIDA

‘Bolsonaro usa futebol de maneira oportunista e demagógica’, diz historiador

‘Bolsonaro usa futebol de maneira oportunista e demagógica’, diz historiador
Para o historiador e cientista social Flavio de Campos, o presidente Jair Bolsonaro utiliza o futebol de maneira oportunista e demagógica sem nunca ter lançado, em um ano e meio de governo, qualquer projeto para tentar resolver problemas históricos do esporte mais popular do país, como a disparidade entre os clubes e a má remuneração…

Para o historiador e cientista social Flavio de Campos, o presidente Jair Bolsonaro utiliza o futebol de maneira oportunista e demagógica sem nunca ter lançado, em um ano e meio de governo, qualquer projeto para tentar resolver problemas históricos do esporte mais popular do país, como a disparidade entre os clubes e a má remuneração da maior parte dos atletas profissionais.

Foto: BBC News Brasil

“As medidas sobre futebol estão sendo tomadas (por Bolsonaro) no improviso, de uma maneira atabalhoada, e ao sabor dos interesses imediatos”, opina Campos, que é professor do curso de pós-graduação em História Sociocultural do Futebol na Universidade de São Paulo (USP).

Em entrevista à BBC News Brasil, o historiador também comentou o uso simbólico da camiseta da seleção brasileira, a influência política das torcidas organizadas e a relação do presidente com clubes como Flamengo e o Palmeiras, além da participação de gestões petistas em escândalos de corrupção envolvendo o esporte mais difundido do mundo.

Doutor em História Social pela USP, Flavio de Campos desenvolve pesquisas sobre história dos jogos da Idade Média à contemporaneidade. Também coordena o Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens), que reúne pesquisadores das principais universidades públicas de São Paulo.

Leia a entrevista abaixo.

BBC News Brasil – Nos últimos meses, a gente viveu um raro momento em que não havia competições de futebol por vários meses. Como as pessoas lidaram com isso?

Flavio de Campos – A pergunta que se colocou para o torcedor nos últimos meses é o que sobra do futebol quando não se tem futebol.

Houve um período em que torcedores revisitaram jogos importantes dos seus times, da seleção brasileira e de outras seleções. A televisão reprisou partidas históricas, mas os torcedores também resgataram acervos disponíveis na internet.

Então o que sobrou do futebol na pandemia? Sobrou a reflexão sobre política. Diversas lives e bate-papos discutiram o papel político do futebol e como ele pode contribuir para pensar e enfrentar problemas brasileiros.

Muita gente passou a enxergar que futebol e política são inseparáveis.

BBC News Brasil – Por que temos essa impressão de que o futebol é apolítico, como se ele ocorresse fora do momento histórico em que está inserido?

Campos – O futebol é a modalidade esportiva mais importante do Brasil e do mundo contemporâneo. É um equívoco separar um elemento cultural desse tamanho das suas relações e implicações sociais, positivas e negativas.

Essa noção remonta à origem do esporte, na Inglaterra do século 19. O futebol era um bem cultural para a elite britânica. Como era amador, não previa e até proibia a remuneração dos praticantes. Ou seja, só podia jogar futebol quem tinha dinheiro. Quem lutava pelo sustento diário precisava ter outra renda, tornando o futebol incompatível com a classe trabalhadora.

Então surgiram formas de praticar o futebol como resistência, furando as proibições e criando um profissionalismo oficioso. A remuneração surgiu assim.

Na segunda metade do século 19, o futebol se tornou uma grande febre na Inglaterra, com 1 milhão de praticantes, da elite aos operários. Ele era resistência e lazer. Esse é um momento de avanço da industrialização e crescimento da classe trabalhadora, a ponto do historiador britânico Eric Hobsbawm, mais tarde, definir o futebol de uma maneira muito bonita: ‘a religião laica da classe operária’.

Ao mesmo tempo, lideranças operárias, tanto socialistas como anarquistas, viram no futebol um elemento de alienação. Para eles, a modalidade tirava o foco da resistência política e da luta de classes. Muitas dessas lideranças recomendaram que os trabalhadores não jogassem futebol.

De fato, há diversos momentos em que o futebol se tornou um instrumento de dominação. Na Itália fascista, por exemplo, bicampeã mundial em 1934 e 1938, ele foi utilizado por Mussolini para fortalecer sua popularidade e o nacionalismo.

Já do ponto de vista dos dominadores, de quem explora o futebol, historicamente se apregoou a ideia de neutralidade, de que futebol e política não se misturam.

BBC News Brasil – Como o sr. avalia a relação entre o presidente Jair Bolsonaro e o futebol brasileiro?

Campos – Vejo uma ação oportunista da parte dele, como é característica de Jair Bolsonaro. A atuação dele se dá em duas frentes: uma simbólica e outra, prática.

Na primeira, ele se apropria de um elemento simbólico do futebol brasileiro que é a camiseta amarela da seleção. Ele e seus apoiadores usam a camisa como um símbolo do grupo.

O elemento prático é sua presença em jogos e conquistas de clubes. Bolsonaro levou (o ex-ministro da Justiça) Sérgio Moro a um jogo do Flamengo em um momento difícil para o ex-juiz, quando surgiram os vazamentos do site Intercept Brasil sobre conversas entre membros da Lava Jato.

Em 2018, Bolsonaro também surfou na conquista do Campeonato Brasileiro pelo Palmeiras. Ele foi ao estádio no dia do recebimento da taça e, indevidamente, entrou em campo, distribuiu medalhas e desfilou com o troféu.

Recentemente, ele lançou uma Medida Provisória (MP), que mudou uma questão difícil de resolver no Brasil: os direitos de transmissão de jogos. A assinatura dessa MP, que dá a transmissão ao clube mandante de uma partida, foi uma retaliação à Rede Globo, que tradicionalmente paga por esses direitos.

Para além disso, Bolsonaro não tem um projeto para o futebol brasileiro, ou para esporte e lazer no Brasil. Se você perguntar a alguém do governo sobre isso, ninguém vai saber responder. As medidas sobre futebol estão sendo tomadas no improviso, de maneira atabalhoada e ao sabor dos interesses imediatos.

BBC News Brasil – Vestir a camisa de um clube rival é algo inaceitável para um torcedor. Por outro lado, Bolsonaro usa camisas de vários clubes até antagônicos. Isso demonstra um amor fraternal pelos clubes ou é estratégia política?

Campos – Até hoje não se sabe se Bolsonaro torce mesmo pelo Palmeiras, pelo Botafogo, pelo Vasco da Gama, pelo Flamengo… Ele já vestiu camisetas de diversos clubes.

Na cultura do futebol e do torcedor, vestir a camiseta de um rival revela falta de caráter. É uma infidelidade inadmissível. Normalmente, quando você perde uma aposta, precisa vestir a camiseta do time rival e ser fotografado com ela, pois isso é um motivo de chacota.

Eu sou palmeirense, e vou confessar que uma única vez na vida torci para o Corinthians. O fato é que sempre torço contra o Corinthians. Ser palmeirense também significa ser anti-Corinthians. Ou seja, não há a menor possibilidade de eu gostar do rival. E vice e versa. Você nunca vai ver um corintiano com a camisa do Palmeiras porque ele quer fazer média com a outra torcida.

Quando Bolsonaro veste a camiseta do Flamengo, do Vasco, do Palmeiras, do Botafogo e de outros times, ele está sendo oportunista e mostrando sua volatilidade de caráter. Com isso, ele tenta surfar na onda do futebol de maneira demagógica.

BBC News Brasil – Qual a diferença para outros políticos? Por exemplo, José Serra é palmeirense, Geraldo Alckmin é santista, Fernando Henrique Cardoso e Lula, corintianos…

Campos – O Serra é um habitué do estádio do Palmeiras há muitos anos: ele aparecer em uma comemoração do clube, por exemplo, seria compreensível… Já o Guilherme Boulos é corintiano, foi da Gaviões da Fiel, tem legitimidade para falar sobre o Corinthians. O Lula sempre se disse corintiano. Você nunca viu o Lula torcendo pelo Palmeiras ou pelo Flamengo.

Ou seja, existe uma vinculação histórica desses políticos com seus clubes, o que não ocorre com Bolsonaro.

Quando Bolsonaro foi à comemoração do Palmeiras, a diretoria do clube permitiu que ele fizesse um uso demagógico do título e do clube, pois ele nunca teve nenhuma vinculação com o Palmeiras — se ela existe, começou muito recentemente.

BBC News Brasil – Nos últimos meses, houve uma aproximação entre Flamengo e Bolsonaro. Como sr. vê essa relação?

Campos – Essa não é uma grande preocupação para mim. Não é novidade que um time se aproxime de governos, ou da CBF, para costurar acordos que o beneficiem.

Na década de 1970, revistas e jornais publicaram uma fotografia do general Emílio Garrastazu Médici e um texto da diretoria do Sport, do Recife. O texto, bastante apologético e carinhoso, agradecia ao ditador por ele ter aceito conceder seu nome para o estádio do Sport. Essa reportagem, porém, apontava uma contradição: o projeto do estádio era do arquiteto Oscar Niemeyer, um notório comunista.

Conto isso para demonstrar que esse movimento é recorrente: é um oportunismo de parte à parte. O Bolsonaro quer se escorar no Flamengo e, por sua vez, o Flamengo quer ter vantagens do governo.

BBC News Brasil – Na campanha eleitoral, Bolsonaro teve apoio explícito de muitos jogadores de grandes clubes.

Campos – Bolsonaro ganhou os vestiários. Durante a campanha eleitoral de 2018, vários jogadores comemoraram gols fazendo aquele famoso gesto da ‘arminha’, em alusão a Bolsonaro.

Vários deles continuam com o apoio mesmo com um ano e meio desse governo desastroso e violento. Um exemplo é o ex-goleiro Marcos, ídolo do Palmeiras. Ele não só apoiou Bolsonaro como ainda mantém uma postura fanática em relação ao governo.

A oposição de esquerda e pessoas que têm compromisso com a democracia não têm conseguido disputar os vestiários com a extrema-direita. Há poucos atletas, técnicos e dirigentes que se pronunciam em oposição ao governo, a maioria aderiu ao bolsonarismo.

Uma exceção é o ex-jogador Raí, hoje diretor do São Paulo. Ele comprou algumas brigas, se posicionando contra o retorno do futebol durante a pandemia, o que o governo defendia. Além dele, há o Roger Machado, técnico do Bahia, que tem falado bastante sobre racismo estrutural no futebol e na sociedade brasileira.

BBC News Brasil – É possível apontar os motivos para esse apoio dos jogadores a Bolsonaro?

Campos – A gente já teve uma geração de atletas bastante politizada à esquerda, na década de 1980. Isso estava em sintonia com a efervescência democrática do momento, no final da ditadura. Por isso, atletas como Sócrates, Casagrande e Wladimir se posicionaram de maneira corajosa.

Nos últimos anos, do ponto de vista da sociedade, houve um desgaste da cultura democrática. E ela se dá sobretudo a partir do segundo mandato de Dilma Rousseff, com a revelação de casos de corrupção pela operação Lava Jato.

Houve uma campanha judiciária e midiática contra a corrupção, mas voltada apenas a um agrupamento específico da política brasileira, que é o Partido dos Trabalhadores. Ao mesmo tempo, iniciou-se uma discussão política que era, na verdade, uma valorização da antipolítica.

O segundo aspecto precisa ser colocado na conta das gestões do PT.

Os governos petistas tiveram nas mãos uma grande agenda esportiva. Desde os mandatos de Lula, houve vários megaeventos esportivos no país: Jogos Mundiais Militares, o Pan Americano, a Copa das Confederações, Copa do Mundo, Jogos Mundiais dos Povos Indígenas e a Olimpíada.

Essa agenda se articulou à política. Mas, nesse aspecto, o PT não conseguiu imprimir uma marca de inclusão social e de transformação pelo esporte. Pelo contrário. Nesses megaeventos, os governos petistas capitularam frente à lógica dos grandes interesses das construtoras, das grandes empresas de mídia e dos patrocinadores.

Não se aproveitou uma oportunidade única na história do Brasil que era mudar essa correlação de força. Não foram criados mais canais de participação dos atletas na construção de políticas públicas para o esporte.

É por causa desses fatores que o discurso da antipolítica e da banalização do machismo e da homofobia ganhou os vestiários.

BBC News Brasil – A Copa de 2014 foi organizada pelos governo do PT, com diversas denúncias de corrupção. Como o sr. acha que ela será lembrada no futuro?

Campos – A Copa não foi um 7 a 1 só dentro de campo. No gramado, a seleção brasileira sofreu sua maior derrota, a mais vergonhosa, a mais sentida, a mais absurda. Isso levando em consideração que o time alemão, no segundo tempo, tirou o pé por respeito. E esse respeito foi humilhante.

O resultado também representa uma virada da política no Brasil. Antes disso, em maio de 2013, a popularidade da Dilma batia recordes. Um mês depois, as jornadas de junho trouxeram primeiro a pauta da mobilidade urbana, mas depois incluíram demandas sociais, como saúde e educação.

A partir daí as demandas se viraram cada vez mais para a agenda esportiva, e contra o PT. Os cartazes dos manifestantes de 2013 pedia “educação padrão Fifa” e “saúde padrão Fifa”, uma ironia em relação ao padrão que a Fifa exigia para as arenas da Copa.

Ao mesmo tempo, os governos petistas abriram a guarda para superfaturamentos escandalosos em obras da Copa e para a construção de estádios absolutamente desnecessários, que desperdiçaram muito dinheiro público.

Ou seja, o 7 a 1 também ocorreu na organização e na política. Eu diria que 2014 será lembrado como a Copa do ocaso do PT. Ela marca o esgotamento do lulismo e de sua capacidade de articular setores antagônicos da sociedade brasileira. O presidencialismo de coalizão do PT levou ao governo bancários e banqueiros, latifundiários e sem-terra, sindicalistas e empresários, setores da direita e da esquerda.

O enfraquecimento desse sistema, simbolicamente representado pelo 7 a 1, vai levar ao impeachment, que eu avalio como um golpe parlamentar.

BBC News Brasil – Hoje a camisa da seleção virou símbolo da direita, a ponto de pessoas de outro posicionamento político não quererem mais vesti-la. O que essa disputa revela?

Campos – Acho um equívoco associar a camisa da seleção, símbolo oficioso do Brasil, à extrema-direita e ao fascismo. Ela é polissêmica dependendo do contexto histórico, e pertence a toda sociedade brasileira.

A ditadura militar, por exemplo, se apropriou dos símbolos nacionais para reforçar seu projeto. No entanto, a seleção da Copa de 1982 representava a transição democrática e a luta contra o próprio regime.

A campanha das Diretas, em 1984, tinha a participação de jogadores como Sócrates e Casagrande. O símbolo da campanha era o amarelo da bandeira nacional e da seleção. O mestre de cerimônia era o Osmar Santos, principal locutor esportivo da época.

Ou seja, a camiseta já teve uma significação democrática, também.

Desde a Copa das Confederações em 2013 e da Copa do Mundo no ano seguinte, ela virou elemento de contestação ao governo Dilma, a ponto de Aécio Neves pedir que seus apoiadores usassem a camiseta na campanha eleitoral. A partir de então, ela se tornou símbolo do impeachment e, depois, foi herdada pelo grupo que apoia Bolsonaro.

BBC News Brasil – Em 1970, a maior seleção de todos os tempos venceu a Copa. Foi um momento de grande alegria no Brasil, mas, ao mesmo tempo, a repressão da ditadura vivia seu auge. Como o regime utilizou esse momento?

Campos – A ditadura militar se utilizou do sucesso daquela seleção exuberante para se fortalecer e ampliar sua propaganda política de legitimação interna. Mas isso é algo que ocorreu com todos os governos da história.

O que a ditadura fez com a seleção de 70 não é essencialmente diferente do que o então presidente Juscelino Kubitschek fez com o time que ganhou a Copa na Suécia, em 1958: ele recebeu a seleção, tirou foto com os atletas, levantou a taça. Em 1962, quando o Brasil venceu a Copa do Chile, o presidente João Goulart, que vivia um momento político difícil, fez a mesma coisa.

Em 1970, no entanto, temos algo mais complexo, claro. Houve um projeto de militarização da comissão técnica da seleção brasileira. Membros da preparação física e da coordenação, como Carlos Alberto Parreira e Cláudio Coutinho, eram egressos de setores das Forças Armadas.

Na cabeça de parte da população, porém, havia um paradoxo: existia uma seleção esplendorosa, com Pelé, Tostão e Jairzinho, mas ao mesmo tempo a repressão prendia, torturava e matava militantes da resistência. Mesmo entre esses militantes havia discussões sobre se se devia torcer pela seleção brasileira ou não.

Aquela seleção representa a expressão máxima da cultura popular brasileira. Ela pode ter sido apropriada pelo governo militar naquele momento, mas não nunca pertenceu ao regime, e sim à cultura popular.

BBC News Brasil – Voltando ao governo Bolsonaro, como torcedores se envolveram nos recentes protestos contra o governo?

Campos – As torcidas organizadas têm, em sua história, diversos episódios de participação política. A Gaviões da Fiel surge, na década de 1960, como uma contestação à diretoria do Corinthians, cujo nome mais forte e importante era o Wadih Helu, que foi deputado pela Arena (partido da ditadura).

Em março de 1979, em uma partida contra o Santos no estádio do Morumbi, a mesma torcida abriu uma faixa com os dizeres: “Anistia ampla, geral e irrestrita”. Alguns dias depois, no mesmo estádio, a torcida do Santos, em um jogo contra o Palmeiras, levou uma faixa com os mesmos dizeres.

Já nos protestos recentes, o que tivemos foi a atuação de coletivos de torcedores deflagrando as primeiras críticas ao governo dentro da linguagem do futebol. Eles não são necessariamente torcidas organizadas, que aderiram depois.

São agrupamentos de esquerda que, nos últimos anos, atuaram sobretudo na internet: anarquistas, socialistas, LGBTs e mulheres que lutam pelo direito de expressão nos estádios.

No primeira manifestação contra Bolsonaro, havia uma chave clubística: corintianos, são-paulinos, palmeirenses e santistas marchando pela avenida Paulista. Não houve qualquer enfrentamento, pois a palavra de ordem era democrática, de respeito à diferença mesmo entre rivais históricos.

Do outro lado, em frente ao prédio da Fiesp, havia outra torcida de futebol, com as camisetas da seleção brasileira. Eles reivindicavam uma identidade homogênea e nacionalista, com um discurso autoritário em que não há espaço para a diversidade. Essa torcida bolsonarista defendia o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal e o estabelecimento de uma ditadura no Brasil, inclusive com menções ao AI-5.

BBC News Brasil – Há na sociedade uma visão negativa sobre as torcidas organizadas em virtude de episódios de violência. Os próprios apoiadores do governo usaram essa perspectiva para criticar os protestos.

Campos – O olhar repressor que propõe a extinção das torcidas organizadas é o mesmo que se lança contra movimentos sociais.

Inegavelmente, as torcidas se envolveram em episódios de violência e de enfrentamento. Mas, muitas vezes, nesses atos houve corresponsabilidade da Polícia Militar ou dos promotores dos eventos.

A extrema-direita costuma dar respostas simplistas a problemas complexos. As torcidas organizadas são um problema complexo, que não se resolve com repressão.

Não estou defendendo a violência, de jeito nenhum. Mas é contraditório o bolsonarismo apontar os erros dos outros quando o presidente faz uma reiterada defesa da cultura da violência, do ódio e da eliminação de seus adversários políticos.

BBC News Brasil – Quais são as principais demandas para futebol brasileiro hoje?

Campos – De cara, penso no futebol de mulheres. A gente vê o futebol no Brasil como um esporte de homens, mesmo com todo o histórico e importância do futebol de mulheres para a sociedade. Precisamos criar condições estruturantes para desenvolvê-lo.

A segunda questão seria equilibrar a diferenças entre os clubes grande e os menores, que hoje são gigantescas. Acredito em esquemas de incentivo aos clubes menores, como bolsões de atletas. As federações estaduais e a CBF, que têm muitos recursos, deveriam criar condições para reequilibrar o jogo.

Há também uma disparidade enorme entre salários de jogadores. A gente vê o salário do Neymar e acredita que todos têm a mesma condição. Isso está muito longe de ser verdade. A condição da grande maioria dos jogadores profissionais no Brasil beira a indigência.

A inclusão social nos espaços de expectação, os estádios, também deveria ser repensada. A elitização e gentrificação das arenas eliminou espaços para camadas mais pobres, pois não há mais setores populares.

Na mesma lógica, precisamos lutar incessantemente contra os preconceitos e discriminação no futebol: o racismo, a homofobia e o machismo. Hoje, torcedores LGBTs têm pouquíssimo espaço nos estádios, porque as arquibancadas são ambientes bastante homofóbicos.

Outra política importante seria a construção de um sistema nacional de esportes e lazer, projeto abandonado pelas gestões do PT. Seria uma articulação entre as práticas esportivas de alto rendimento e as de lazer. A montagem desse sistema garantiria o direito universal ao lazer, previsto pela Constituição, e iria favorecer o aparecimento de bons atletas em diversas modalidades.

Por fim, eu citaria o fortalecimento dos clubes. Vejo com muita reticência o discurso neoliberal de construção de clubes-empresas e gestões tecnocráticas. Acredito que deveríamos resgatar gestões participativas, democráticas e inclusivas dos clubes. Os sócios e torcedores deveriam ter mais espaço e voz.

BBC News Brasil – O sr. disse antes que torceu uma única vez para o Corinthians. Quando foi isso?

Campos – Foi na final do Campeonato Paulista entre Corinthians e São Paulo, em 1983. Meu pai, já falecido, torcia para o São Paulo. Óbvio que, como palmeirense, eu iria torcer contra o Corinthians.

Estávamos na frente da TV, e o time do Corinthians entrou em campo com uma faixa com os dizeres: “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. Naquele momento, meu pai percebeu que eu iria torcer para o Corinthians, porque naquele ano a defesa da democracia era mais importante que a rivalidade. Foi a única vez que isso aconteceu, e posso dizer que nunca vesti a camisa do Corinthians.


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