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Brasil 1-7 Alemanha: por que vale a pena rever uma derrota como o Mineirazo

Brasil 1-7 Alemanha: por que vale a pena rever uma derrota como o Mineirazo
Publicado em 31/05/20 04:08 Atualizado em 31/05/20 07:40 Klose comemora um dos gols da Alemanha no Mineirão Foto: Marcelo Theobald Jejum de partidas inéditas, em razão da pandemia do novo coronavírus, consagrou as reprises de jogos históricos na TV. Ao longo das últimas semanas, torcedores puderam congregar, mesmo que a distância, para relembrar algumas das…

Klose comemora um dos gols da Alemanha no Mineirão Foto: Marcelo Theobald

Jejum de partidas inéditas, em razão da pandemia do novo coronavírus, consagrou as reprises de jogos históricos na TV. Ao longo das últimas semanas, torcedores puderam congregar, mesmo que a distância, para relembrar algumas das principais conquistas de seus times e da seleção. Neste domingo, porém, a oportunidade será de revisitar uma das derrotas mais simbólicas do futebol, o 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil na semifinal da Copa do Mundo de 2014 (Sportv, às 18h).

Embora não haja entrega de taça ou garantia de lágrimas no apito final, revisitar o Mineirazo pode oferecer outras recompensas ao telespectador. Entre elas, a chance de redimensionar o que significou aquela derrota, adjetivada por muitos como “vexame” ou “vergonha”. É fato que um revés tão elástico em uma semifinal de Mundial representa uma mancha irreversível no currículo da seleção, mas talvez ele não seja causa ou consequência de todos os problemas do país, dentro e fora de campo, como se apontou à época.

— Muitas vezes, um trauma coletivo pode catalisar outras questões, como ocorreu no episódio do 7 a 1. Emergiram questões políticas e sociais que faziam parte daquele momento no Brasil. Perder dessa forma foi um golpe duríssimo para a maioria de nós — afirma Carlos Aragão Neto, doutor em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília. — Rever o jogo pode ser uma oportunidade de processar internamente a dor dessa derrota. A partir disso, fica mais fácil fazer as pazes com a seleção, exorcizar culpados e seguir em frente.

Essa visão reparadora é compartilhada pelo colunista do GLOBO Carlos Eduardo Mansur. Ele acredita que o resultado no Mineirão não se explica pelo estágio do futebol brasileiro ou do alemão à época. Para ele, trata-se de um “acidente de avião”, potencializado pelas ausências de Thiago Silva e, principalmente, Neymar.

— O jogo é um atropelamento, mas também é muito estranho, porque cinco gols saem num espaço curtíssimo. E aí o Brasil passa por um calvário, que é jogar uma partida em um estádio lotado pela sua torcida já desmoralizado — analisa Mansur. — O 7 a 1 não refletia a diferença entre o futebol brasileiro, que tinha e tem problemas, e o alemão, que está à frente em ideia de jogo. Mas o exagero do diagnóstico, que no Brasil é um padrão comportamental, conduziu a uma reformulação do debate, a algumas reformas. Os efeitos são interessantes de examinar.

Abertura para estrangeiros

Talvez o maior deles tenha sido a abertura do mercado nacional para técnicos estrangeiros. Do Mundial de 2014 para cá, sete dos 12 maiores clubes do país tiveram ao menos um treinador nascido fora do país — São Paulo e Atlético-MG já contrataram três, considerando a recente chegada de Jorge Sampaoli ao Galo. Dentre esses sete times, o único que havia apostado em um técnico gringo nos anos que antecederam o Mundial fora o Internacional, em 2010, com o uruguaio Jorge Fossati.

Também houve enorme descrença em relação aos jogadores que estavam em campo e representavam toda uma geração de talentos brasileiros. Vários deles, porém, provaram que suas carreiras não seriam definidas por aquele momento. Marcelo conquistou três títulos seguidos da Liga dos Campeões pelo Real Madrid, clube que ainda defende. Fernandinho foi um dos titulares do Manchester City que bateu quase todos os recordes possíveis no Campeonato Inglês, em 2017-2018. William seguiu na seleção até a Copa do Mundo seguinte. E mesmo Felipão continuou a vencer, ao levar o Palmeiras ao título brasileiro de 2018.

Talvez o torcedor tenha a sua chance de redenção a partir do VT deste domingo, como aponta o psicólogo:

— Encontramos o contentamento ou a felicidade na vida quando conseguimos aceitar que coisas boas e ruins acontecem, e aprendemos a ressignificar as derrotas para alcançar as vitórias.

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