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Campo da Graça: os 100 anos do primeiro estádio de futebol de Salvador

Torcedores do Stadium Arthur de Moraes, o extinto Campo da Graça Vestido de calça comprida, o árbitro ouve o alarme sonoro emitido pelo cronometrista e aponta o fim da partida. O referee, como se dizia, não dispõe ainda do relógio de pulso com cronômetro. O gol de Fernando dá a vitória e o título ao…
Torcedores do Stadium Arthur de Moraes, o extinto Campo da Graça

Vestido de calça comprida, o árbitro ouve o alarme sonoro emitido pelo cronometrista e aponta o fim da partida. O referee, como se dizia, não dispõe ainda do relógio de pulso com cronômetro. O gol de Fernando dá a vitória e o título ao Ypiranga, formado por estivadores e trabalhadores de ganho, que bate a elitista Associação Atlética da Bahia (AAB) e conquista o seu terceiro campeonato baiano. O primeiro cuja final foi disputada no elegante Stadium, um campo de futebol construído na Graça pelo engenheiro Arthur de Moraes, que havia praticado o esporte bretão como zagueiro do Vitória e decidiu construir uma praça esportiva nos padrões da Inglaterra.

Nas arquibancadas de madeira e ferro, os jogadores de ambos os escretes são incentivados por milhares de mulheres e homens da elite baiana, elegantemente vestidos, no fim da tarde de 19 de dezembro de 1920, o jogo marca o início de uma nova fase do futebol baiano. 

“Ninguém ia ao estádio de bermuda” , lembra o engenheiro Almir Ferreira, 84 anos, torcedor do Botafogo Sport Club. De 1920 a 1950, o esporte que chegou à cidade pelas mãos de Zuza Ferreira, um funcionário do Bank of London que havia estudado na capital inglesa, revela o talento de jogadores negros e pobres, como Apolinário, o Popó. 

Sete anos antes, a elite e o operariado jogavam torneios à parte. A Liga Bahiana de Desportos Terrestres, a Liga dos Brancos, reunia times como o Internacional, composto por ingleses, e o Vitória, primeiro clube de futebol do país formado exclusivamente por brasileiros. Ambos começaram suas atividades como clubes de críquete, tradicional esporte com origens na Inglaterra medieval. 

Os jogos dessa modalidade eram disputados no Campo Grande pelos estrangeiros que moravam e trabalhavam com exportação e finanças, principalmente na rua que depois foi batizada como Banco dos Ingleses. E pelos jovens da elite industrial e comercial que habitavam mansões no Corredor da Vitória, antiga Estrada da Victória, de onde saiu o nome da agremiação.

Quando a bola começou a rolar no ground do Rio Vermelho, onde hoje existe a Praça Colombo, e depois na área que seria batizada de Campo da Pólvora, homens da classe trabalhadora começaram a se interessar por aquele jogo praticado pelos brancos.

Há exatos 116 anos, em 19 de abril de 1904, uma reunião de estivadores e trabalhadores de ganho em um sobrado na Rua da Faísca, Largo Dois de Julho, sacramentava a criação do Sport Club Sete de Setembro, embrião do Esporte Clube Ypiranga, fundado em 1906, que seria um dos pioneiros, junto com o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, na inclusão de atletas negros no esporte. 

O racismo era declarado à época, a ponto de o Fluminense forçar jogadores com pele mais escura a aplicar pó de arroz no rosto para mascarar a etnia. Em 1921, um ano depois da inauguração do Campo da Graça, a seleção brasileira disputaria um amistoso com a Argentina em Buenos Aires, e, por determinação do presidente Epitácio Pessoa, nenhum jogador negro fez parte da delegação. O episódio é contado pelo historiador Boris Fausto no livro Brasil e Argentina, 150 Anos de História Comparada.

De terno e gravata, o imigrante espanhol Francisco Pazos González visita os comerciantes da Barra para lhes vender combustível. Um dos clientes é Agustín Baqueiro, dono da Casa Baqueiro, na Rua Greenfeld, que, assim como ele, havia deixado para trás uma Espanha empobrecida para tentar a vida no novo mundo. São muitos os galegos na capital baiana. Criam-se laços de amizade, o Hospital Espanhol e o Clube Espanhol, ambos no bairro. 

Aos domingos, González atua como meio-campista no Galícia Esporte Clube, time criado pela colônia espanhola em 1º de janeiro de 1933 com jogadores locais e de além-mar. Seus colegas e a torcida o chamam de Macoco. 

Filho de Baqueiro nascido na Bahia, Arnobio Baqueiro Rios, então com 8 anos, vê o jogador de perto nas transações comerciais entre ele e seu pai. Mas para acompanhá-lo nos jogos do Campo da Graça, na maioria das vezes, tem que subir no telhado da Padaria Rio Branco, na esquina da Rua Rio de São Pedro, para acompanhar os lances, olhando por cima das árvores que ladeiam o campo. 

“Só havia uma bola. Quando ela caía fora do campo, era preciso esperar um funcionário buscar ou que alguém da rua a chutasse de volta”, lembra Arnobio. Leitor de A TARDE desde 1938, faz questão de ressaltar a importância do jornal em sua vida: “Aprendi muito lendo A TARDE”.

Com o vice-campeonato obtido em 1935, os galegos se empolgam e trazem da terra natal um goleiro profissional. José Tunel Cavalieri, o Talladas, conquista o campeonato baiano com o time em 1937 e depois vai jogar no Flamengo e no Santos. Adolescente, Arnobio passa a frequentar o estádio com os amigos na geral. É 1943 e o Galícia ruma para se tornar o primeiro tricampeão baiano. “Teve um jogo que eu não encontrei ingresso para a geral, comprei na sombra, e atravessei o campo todo para ficar com os amigos”, lembra. 

Arnobio Baqueiro, torcedor do Galícia

O grande sucesso obtido em apenas uma década de existência rende ao Galícia o apelido de Demolidor de Campeões, em referência aos grandes resultados obtidos diante do Botafogo e do Ypiranga, que juntos venceram 12 dos 14 campeonatos disputados entre 1917 e 1930. A série é quebrada no ano seguinte pelo estreante Esporte Clube Bahia, criado em 1º de janeiro de 1931 por atletas dos extintos times de futebol do Clube Bahiano de Tênis e da AAB, que queriam continuar jogando. 

No final da década de 40, durante uma partida do Galícia, Arnobio participa de um concurso promovido pela revista Semana Sportiva, com o intuito de adivinhar quantos torcedores compareceram ao Estádio Arthur de Moraes, assim batizado após a morte do seu fundador.

O editor da revista é o psiquiatra Antônio Ribeiro Pellegrino, fã de esportes e apaixonado pelo Botafogo Sport Club. “Foi em um jogo de vôlei que ele conheceu a minha mãe”, conta o caçula Paolo Pellegrino, irmão do atual secretário de Desenvolvimento Urbano do Estado, Nelson Pelegrino.

Mesmo tendo sido fundado por trabalhadores, o Botafogo Sport Club não enfrenta as mesmas resistências sofridas pelo Ypiranga. Criado em 1914, quando os times operários já haviam sido aceitos no campeonato baiano, o time surge como uma homenagem ao homônimo do Rio, criado 10 anos antes. A curiosidade é que a versão baiana adota as cores vermelho e branco, em homenagem ao Corpo de Bombeiros, onde trabalha seu fundador, o sargento Antônio Valverde, cuja missão é apagar fogo. 

O Campo da Graça também rendeu ao Botafogo um apelido, o Campeão dos Centenários, uma referência ao bicampeonato de 1922 e 1923, centenário da Independência do Brasil e da Bahia, respectivamente.

Notáveis

A história do primeiro estádio de futebol da cidade está repleta de jogos e jogadores notáveis. A maior goleada da história do campeonato baiano acontece ali, em 1930, quando o Ypiranga aplica inacreditáveis 16 a 0 no Democrata. 

Sete anos antes, em 15 de abril de 1923, com o Campo da Graça lotado, o Ypiranga consegue um triunfo que chama a atenção de todo o país. Faz 5 a 4 sobre o Fluminense do Rio, com cinco gols de Apolinário Santana, o Popó, considerado o primeiro craque do futebol baiano.

Nos anos seguintes, o jogador negro, de origem humilde, ganhou uma legião de admiradores, incluindo a jovem Maria Rita Pontes, que se tornaria depois a Irmã Dulce. “É um clube centenário, cheio de história, de torcedores ilustres”, afirma o ex-presidente e atual conselheiro do clube Emerson Ferreti, ao falar sobre o encantamento produzido no passado pelo aurinegro.

Apaixonada por futebol e pelo Ypiranga, a futura primeira santa do Brasil frequenta o campo quase todos os domingos, na companhia do pai, o dentista Augusto Pontes. 

Outro torcedor célebre do clube, Jorge Amado declara o seu amor ao Ypiranga no livro Bahia de Todos os Santos, publicado em 1946. Nove anos depois, o ídolo maior do time, Popó, morre na miséria, pedindo esmolas em frente ao novo estádio da Fonte Nova, construído para ser usado na Copa do Mundo de 1950, mas que só fica pronto no ano seguinte.

Escondidos

Apesar do inegável preconceito por parte de famílias abastadas com a popularização do futebol (houve casos de jovens da elite que atuaram escondidos), sobrenomes de peso continuaram a frequentar os gramados do bairro. Tio-avô do prefeito ACM Neto, Zezito Magalhães foi lateral-direito do Bahia, seu time de coração, em 1946. 

Nesse mesmo ano, um sonoro 7 a 2 aplicado pelo tricolor no São Paulo fez surgir o apelido Esquadrão de Aço. Expressão cunhada originalmente nas páginas de A TARDE pelo jornalista Aristóteles Góes.

Integrante de uma tradicional família de rubro-negros, o jurista José Martins Catharino jogou pelo Vitória. Ironicamente, o time foi o único dos grandes a não conquistar um campeonato baiano disputado na Graça. Nesse período, o clube focava apenas no remo. A ênfase no futebol começou na Fonte Nova, quando outro Martins Catharino, de prenome Luiz, assumiu a presidência do Vitória, em 1953. 

A elegância dos trajes da torcida da Graça também é gradualmente substituída por roupas informais. Na Fonte Nova de bermuda e camiseta, cantaria anos depois o popular Chocolate da Bahia. 

O deslocamento dos jogos de futebol para o bairro de Nazaré, próximo ao pioneiro Campo dos Mártires, ou Campo da Pólvora, coincide com o início da decadência de três grandes clubes baianos. O Ypiranga perde gradualmente o posto de time de massas para o Bahia, o Botafogo monta seu último grande time em 1955 e o Galícia permanece competitivo até o final da década de 1960. 

Mesmo sem abrigar mais as principais partidas do campeonato baiano, o lendário Campo da Graça resiste em pé até o início da década de 1970, quando o terreno é vendido para construtoras e o estádio cede lugar a prédios imponentes. Subir em um telhado para assistir a uma partida de futebol ou chutar de volta para o campo a bola que foi parar na rua, que eram também a graça do futebol, são gestos enterrados na história da Graça. 

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