BRASILEIRÃO

CAPSi intensifica ações e estratégias para estabelecer vínculo com crianças e jovens em situação de rua

CAPSi intensifica ações e estratégias para estabelecer vínculo com crianças e jovens em situação de rua
A partir da pandemia, houve um aumento dos distúrbios psicológicos em jovens e crianças, porém, cresceu a evasão dos usuários do CAPSi, o que fez com que a equipe criasse estratégias para acessar e cuidar desses usuários Na zona norte do município de São Paulo – mais precisamente nos bairros de Santana, Tucuruvi, Jaçanã e…

A partir da pandemia, houve um aumento dos distúrbios psicológicos em jovens e crianças, porém, cresceu a evasão dos usuários do CAPSi, o que fez com que a equipe criasse estratégias para acessar e cuidar desses usuários

Na zona norte do município de São Paulo – mais precisamente nos bairros de Santana, Tucuruvi, Jaçanã e Tremembé – há uma grande concentração de pessoas vivendo em situação de rua, sobretudo nas imediações do metrô e do terminal rodoviário. O advento da pandemia causada pelo coronavírus deixou essa população ainda mais numerosa e vulnerável, sob um regime de escassez onde tudo falta: água, alimentos, material de higiene, serviços públicos. A intensificação das fragilidades no território levou os profissionais do Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil de Santana (CAPSi) a se deslocar do espaço “fixo” de atuação e ir às ruas para oferecer cuidado às crianças e adolescentes em vulnerabilidade social.

“A gente foi percebendo com a pandemia que muitos dos serviços que aconteciam na rua deram um passo para trás e a população não tinha com quem contar. A Covid-19 aumentou ainda mais a necessidade de estar próximo desses jovens, já que eles não estavam mais indo até os nossos serviços”, conta a coordenadora do CAPSi de Santana, Mara Isa de Vasconcelos Coracini. 

A estratégia de aproximação realizada pela equipe foi expandir o processo de escuta e, sobretudo, não criar nenhum tipo de julgamento moral. “No início foi um pouco mais difícil, a gente foi percebendo o que dava certo, como estar nos mesmos dias e horários onde eles ficavam, estabelecer uma rotina de presença para que soubessem que podiam contar conosco. A gente propõe várias brincadeiras, que envolviam, por exemplo, o uso de instrumentos musicais”, conta 

Para que as ações tenham efetividade na rua é fundamental construir estratégias de trabalho em rede, considerando as necessidades em um espectro amplo e diversificado. Também estiveram juntos nesse cuidado profissionais do CAPS AD (Álcool e outras Drogas) de Santana, do Consultório na Rua e do Serviço Especializado de Abordagem de Pessoas em Situação de Rua.

Durante as visitas, e diante da constatação da inexistência de insumos básicos, os profissionais começaram uma campanha para distribuição de água, produtos de higiene pessoal e alimentos. Para as crianças, os agentes levam material lúdico como bola, giz e canetinhas e promovem brincadeiras como amarelinha na rua, jogos e desenhos.

Ações na rua

As ações nas rua possibilitaram a construção de um projeto terapêutico conjunto. Em parceria com os profissionais de saúde, os usuários identificavam suas prioridades e a equipe vai acionando a rede de serviços de acordo com as necessidades. Hoje, as crianças já esperam os profissionais nos dias marcados para conversar e pensar nas ações de forma conjunta. A rede de proteção social se efetivou de tal forma que os meninos e meninas levam os amigos e conhecidos para apresentar a equipe do CAPS i e se integram ao grupo. “Tem sido uma ação com resultados positivos. Eles já estão acessando os nossos serviços, e já tem conhecimento das ações, o que antes não acontecia com frequencia porque ficavam à margem”, reitera Mara Isa.  

São muitos os lugares onde os profissionais percebem maior concentração dos jovens, como em uma oficina abandonada e na ocupação da Avenida Antonelo de Messina. Alguns são “tutelados” pelos chamados “pais de rua” e a presença dos profissionais requer um jogo de negociação onde se consideram regras de convivência. “Esse projeto nos possibilitou entender onde os meninos em situação de rua estavam, qual é de fato a realidade que vivem e, sobretudo, entender mais sobre o uso abusivo de substâncias psicoativas. Através da política de redução de danos, conseguimos ajudá-los a diminuir consideravelmente o uso dessas substâncias, muitos foram para abrigos, outros passaram a ser acompanhados no CAPS e alguns tiveram o vínculo familiar reestabelecido”, detalha a gerente da unidade.

Aumento de distúrbios psicológicos 

Um breve perfil dos jovens da região – feito a partir da observação dos profissionais ao longo de um ano de trabalho – revela algumas características predominantes: a faixa etária gira em torno de 8 à 18 anos, mas a maioria está acima de 14 anos; vêm de famílias de outros territórios; há casos de conflito com a lei e identifica-se o uso de substâncias psicoativas e histórico familiar de situação de rua.

O CAPS i de Santana, classificado como de tipo 3, oferece atendimento integral com cinco leitos de atenção à crise. Ao todo, 57 profissionais de diferentes especialidades atuam na unidade e 740 crianças e adolescentes estão em acompanhamento. Do total de leitos, 60% estão ocupados por adolescentes com histórico de tentativa de suicídio. Os profissionais confirmam um aumento muito grande de distúrbios psicológicos dos jovens a partir da pandemia, com casos de crianças com comprometimento no processo de desenvolvimento cognitivo, depressão grave, transtorno de ansiedade e dificuldade de interação social. 

A Agente Redutora de Danos, Caroline Medeiros Chaves, assumiu a área de abrangência do CAPS de Santana em 2021, quando o vínculo entre as equipes de saúde e a população em situação de rua já tinha se estabelecido. Ela chama atenção para o respeito e a autonomia construídos no território a partir de um trabalho que pressupõe uma relação horizontalizada, onde haja parceria entre profissionais e usuários. “Chegamos sem muitas coisas estruturadas, em aberto. Vamos nos apresentando para dizer o que somos e o que fazemos e conforme nos abrimos para conversar, as pessoas vão se aproximando mais”. 

Segundo Caroline, esse trabalho se pauta na capacidade de perceber quais as possibilidades de atuação a partir do que a população apresenta como desejo. As vezes ouvir música, conversar, mandar uma mensagem pelo celular, levar uma cartinha, tocar instrumentos já é um cuidado importante para eles. 

O envolvimento das equipes tem levado os profissionais a se deslocarem do seu cotidiano para estar presente em diferentes situações. Caroline conta que eles estiveram em outro território para prestigiar uma iniciativa denominada “samba das mulheres”, em que as pessoas em situação de rua se reúnem para dançar, cantar e tocar instrumentos, tendo mulheres como protagonistas. Em outra ocasião, profissionais e usuários organizaram juntos uma sessão de cinema na praça. Todos se mobilizaram para conseguir a estrutura necessária e a equipe permaneceu noite à dentro para garantir a projeção do filme. E assim o projeto segue, buscando resgatar histórias de vida através do afeto e do vínculo.

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