TORCIDA

Cueva é um de nós

Cueva é um de nós
POR LUCCA BOPP* Christian Cueva causou polêmica entre são-paulinos e são-paulinas, na última semana. O peruano declarou que tem vontade de voltar ao São Paulo e aceitaria um contrato de produtividade para vestir a camisa tricolor, mais uma vez. Uma parte da torcida rechaçou de imediato a possibilidade de retorno do meia, enquanto outra viu…

POR LUCCA BOPP*

Christian Cueva causou polêmica entre são-paulinos e são-paulinas, na última semana. O peruano declarou que tem vontade de voltar ao São Paulo e aceitaria um contrato de produtividade para vestir a camisa tricolor, mais uma vez. Uma parte da torcida rechaçou de imediato a possibilidade de retorno do meia, enquanto outra viu com bons olhos a chance de Cuevita pisar novamente no Morumbi. Eu faço parte desta segunda metade. E as razões vão muito além da habilidade do peruano, com sua perna direita tão curta quanto traiçoeira, mas comecemos por ela. 

Cueva é um jogador acima da média. Ponto. Capaz de decidir o jogo em um lance, seja deixando os companheiros na cara do gol, driblando meio time adversário ou marcando gols importantes. Fez isso recorrentemente no São Paulo e faz o mesmo com a camisa do Peru. Sua técnica apuradíssima já o coloca em um panteão diferente no Brasil. Além disso, chama atenção a memória curta e seletiva da torcida são-paulina: Cueva foi absolutamente fundamental para livrar o São Paulo do rebaixamento, em 2017. Hernanes foi o maior expoente, mas sem Cueva a salvação não seria possível: se agigantou em jogos nevrálgicos daquela reta final movediça, contra Athletico-PR, Santos e Flamengo. Pode botar na conta dele, também, a manutenção da invencibilidade tricolor na Série A. 

Isso já bastaria para ser recebido de braços abertos – jogadores decisivos nos momentos mais delicados da história de um clube merecem lugar cativo na gratidão dos torcedores. Mas também podemos falar de outro aspecto que coloca Cueva em outra prateleira de atletas do São Paulo na última década. A partida do meia contra o Corinthians, no Campeonato Brasileiro de 2016, foi uma das maiores atuações de um jogador com a camisa do São Paulo no século 21. Até porque, nos últimos anos, o são-paulino perdeu a conta de quantas vezes apanhou em clássicos. A derrota mais dolorosa veio um ano antes da referida partida: em 2015, contra o time misto de um Corinthians já campeão, um massacre por 6 a 1. Uma vergonha histórica, que jamais cicatrizará no coração e no orgulho são-paulino.

Este contexto expande a atuação monumental do peruano de 1,69m. Cueva, que não estava em campo na surra de Itaquera, tomou as dores pra si e orquestrou um time bem meia-boca do São Paulo. Desfilou no Morumbi, contando com o apetite dos emergentes Luiz Araújo e David Neres, e acabou com a partida: 4 a 0, dando três assistências e fazendo um gol de pênalti no indigesto Cássio – a celebrada “Cuevadinha”. Na comemoração, mãos no ouvido provocando o rival e pedindo o amor dos seus, exatamente como fazem os postulantes à idolatria. O troco estava dado pelos pés de um improvável paladino. 

Claro que Cueva é um jogador de prioridades controversas e, nos seus últimos meses de São Paulo, chutou o profissionalismo para a Praça Roberto Gomes Pedrosa. Ficou acima do peso, não deu as caras em reapresentações, trocou o Gatorade pela Itaipava e minguou em campo. Só se preocupava com a iminente convocação para a Copa do Mundo da Rússia, quando o Peru voltaria ao Mundial depois de intermináveis trinta e seis anos sem participar da competição. Convenhamos: ele está errado? Mais do que isso: deveríamos esperar uma tremenda entrega contra o Oeste, numa encharcada Arena Barueri, pelo Paulistinha, quando o maior campeonato da sua vida se avizinha? Que fique claro: a desconfiança do são-paulino tem fundamento, mas acho que não aceitá-lo de volta, especialmente nos moldes propostos por ele próprio, beira a hipocrisia. Afinal, o maior pecado de Cueva é não fazer questão de esconder uma verdade tão simples quanto evidente: ele é um de nós.

Cueva, como todos os profissionais de todas as áreas, é seduzido pelos prazeres da vida terrena: a esticada no bar com os amigos, com uma ou duas saideiras, as noites em claro, o drible na dieta, o uso da função soneca no despertador. Solo se vive una vez,deve ter dito um alegre Christian Cueva em qualquer farra caprichada na véspera de treino. Evidente que jogadores profissionais, pelos absurdos salários que recebem, devem honrar o compromisso que fizeram com o clube e mostrar comprometimento. Mas duvido que todos eles renunciem às tentações mais cotidianas – Ronaldo, Sócrates e Garrincha, três dos maiores de gerações diferentes, nunca negaram seus hábitos pouco indicados para um atleta. Cueva não engraxa a chuteira de nenhum dos três, obviamente, mas, como eles, não nega que é feito de carne e osso. Talvez falte ao peruano um discurso mais comportado, pasteurizado e obediente ao media training. Assim, quem sabe, se torne mais afável aos olhos convenientemente puristas.

Se o futebol ainda é sobre conexões emocionais – e é –, ver um cara como Cueva, jogando como gostaríamos de jogar, e aproveitando a vida como aproveitamos a nossa, é um tremendo atrativo. É impossível não se identificar com ele, com suas inconsequências tão familiares quanto o espelho. Um personagem fascinante, que traz um pouco de ceviche para esta sopa de tofu que se tornou a boleirada brasileira. 

Cueva é falível e sabe disso. Sua proposta de atrelar seus ganhos à produtividade é, também, um reconhecimento: sei que não sou o atleta ideal, é capaz de eu escorregar aqui e ali, mas peço que confiem em mim como eu confio. No mínimo, corajoso e verdadeiro.

A verdade, quem diria, também tem perna curta. 

*Lucca Bopp é escritor.

Fonte