TORCIDA

Entenda como o silêncio em jogos sem público afeta o psicológico dos jogadores do seu time

Entenda como o silêncio em jogos sem público afeta o psicológico dos jogadores do seu time
Imagine dois exércitos da Idade Média correndo um na direção do outro — aquela cena de batalha tão comum em filmes épicos —, mas que as tropas o fizessem em silêncio total. Nada de incentivo dos outros combatentes. A ausência dos gatilhos emocionais oriundos desses estímulos sonoros e visuais criaria situação semelhante a que os…

Imagine dois exércitos da Idade Média correndo um na direção do outro — aquela cena de batalha tão comum em filmes épicos —, mas que as tropas o fizessem em silêncio total. Nada de incentivo dos outros combatentes. A ausência dos gatilhos emocionais oriundos desses estímulos sonoros e visuais criaria situação semelhante a que os atletas de futebol vivem atualmente nos estádios sem torcida, essa realidade nada convencional criada pela pandemia.

No Brasil, os clubes se dividem entre métodos mais científicos ou mais motivacionais para lidar com a falta de público. Na Série A, apenas Vasco, Botafogo, Fluminense, Fortaleza e São Paulo possuem psicólogos no departamento de futebol, com trabalhos específicos nesse sentido. Ou seja, um quarto dos 20 clubes. Nas demais equipes, segundo relatos de dirigentes, o momento é de maior mobilização de toda a comissão técnica em busca de potencializar a concentração.

O Internacional, líder do Brasileiro, tem procurado criar um espírito de decisão em todas as partidas, dentro e fora de casa, para que a intensidade em campo permaneça. Para isso, o clube reúne a tropa disponível internamente, já que não conta com a sua massa.

— Temos feito trabalho de preparação motivacional no vestiário para os caras entrarem ligados. É outro jogo. A torcida contra motivava, a favor ajudava. Tem que elevar o nível de concentração. Com esse tipo de ambiente, sofre mais. Precisamos elevar a rotação. Aquela gritaria tem que valer — explica o diretor Rodrigo Caetano.

A tal gritaria significa o estímulo verbal dos próprios atletas e membros da comissão técnica entre si. Que também acontece no Flamengo, por exemplo. O clube se baseia em artigos científicos comprovando que o comportamento melhora a performance – tanto que estão presentes em testes de força máxima e até lutas de MMA. E agora mais ainda em treinos e jogos.

Contudo, especialistas ouvidos pelo GLOBO divergem sobre tal prática.

— Acredito que tenha sua importância o estímulo cognitivo e emocional que a comissão técnica faz no dia a dia. Não da pra dizer que não faz diferença. É um ritual antes de entrar em campo. —avalia Maíra Ruas, psicóloga do Vasco.

Para o psicólogo Alberto Filgueiras, ex-Flamengo, atletas de elite já se “dessensibilizaram” com o estímulo.

— Esse “vamos, vamos!” não funciona. Os jogadores estão acostumados. Talvez seja melhor que o silêncio. Mas atletas de elite se dessensibilizaram com essa prática — opina Alberto.

A testosterona e o medo

O especialista detalha que a falta de público na ordem de dezenas de milhares de pessoas deixa de provocar a produção de maiores níveis de testosterona na equipe mandante, que se estimula pela maioria da torcida a seu favor. O hormônio, como se sabe, aumenta a potência muscular.

Por outro lado, o time visitante, que também é formado por atletas de elite e bem preparados fisicamente, não sofre com o fator medo, segundo o psicólogo. Ao não se deparar com uma massa criando um ambiente hostil e literalmente ameaçador, o fator campo perde sua força.

— Esse efeito tem a ver com a quantidade de pessoas que está do seu lado batalhando contra um adversário. Não se trata de motivação. Se trata de se sentir mais legitimado — explica Alberto.

Todos concordam, porém, que no vácuo de estímulos sonoros e visuais, os atletas de futebol não têm mais o frisson das arquibancadas abafando os demais sons e precisam escolher o que vão escutar. O que gera um momento de transição e habituação. Que requer tempo de raciocínio, antes dedicado apenas a executar os movimentos de jogo outrora automatizados.

Segundo Paulo Ribeiro, psicólogo do Botafogo, há um lado bom no fato de não ter que dividir a atenção com a torcida.

— Ficou mais fácil pra gente fazer com que o atleta desse atenção maior a variáveis que acontecem no jogo. A percepção do atleta fica mais aberta. Ele pode se comunicar de forma mais efetiva com a equipe. Facilitou para que os processos de atenção fiquem mais apurados – analisa.

— Da mesma forma que diminui a comunicação pelo som da torcida, aumenta a responsabilidade, pois eles estão ouvindo de forma mais clara. Requer mais do psicológico – acrescenta Maíra.

No novo normal, o fenômeno social notado é que a técnica começa a prevalecer em detrimento das variáveis emocionais. A ciência já observou esse resultado na volta dos jogos sem público. Um estudo da Universidade de Reading, na Inglaterra, analisou os jogos disputados com portões fechados nas cinco principais ligas europeias entre a temporada 2002/03 e abril de 2020. A maioria na França e na Itália.

A média de vitórias dos mandantes caiu de 45,8% em jogos com torcida para 36% na ausência de torcedores. Os visitantes, que antes venciam apenas 25,9% das partidas, passaram a triunfar em média 33,5% das vezes com portões fechados.

No Brasileirão do ano passado, os mandantes venceram 48% dos jogos. Neste ano, até aqui eles levaram a melhor em 42% das partidas. A média de vitórias dos visitantes subiu de 25% para 28% neste ano.

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