MORUMBI

Fim do GP Brasil é chance para SP | Sem F-1, cidade tem oportunidade de investir em outras modalidades

Fim do GP Brasil é chance para SP | Sem F-1, cidade tem oportunidade de investir em outras modalidades
Com o cancelamento do GP Brasil de Fórmula 1 de 2020, na prática acabou o contrato que dá à Interpub o direito de organizar a corrida em Interlagos. Também acabou o compromisso da prefeitura municipal de São Paulo de investir ao menos R$ 40 milhões por ano na infraestrutura do GP, o que inclui desde…

Com o cancelamento do GP Brasil de Fórmula 1 de 2020, na prática acabou o contrato que dá à Interpub o direito de organizar a corrida em Interlagos. Também acabou o compromisso da prefeitura municipal de São Paulo de investir ao menos R$ 40 milhões por ano na infraestrutura do GP, o que inclui desde montagem de arquibancadas provisórias até segurança privada e limpeza. Para 2020, a previsão era mais alta ainda: R$ 48 milhões.

Ainda que a Interpub ficasse com a receita do tíquete do torcedor que se senta na arquibancada montada com recursos públicos, o saldo era positivo, nas contas da prefeitura, porque o fã de F1 não investe apenas no ingresso. Ele aluga hotel, almoça e janta em restaurantes, faz compras, vai à boate, etc. A SPTuris calcula que o GP tenha movimentado R$ 360 milhões na cidade ano passado, ante R$ 334 milhões em 2018 – número estranho, porque segundo o estudo houve redução na proporção de visitantes, na média de gastos, na hospedagem em hotéis e em diversos outros fatores.

Independente dos números, fato é que, segundo a prefeitura, o investimento compensa. Atrair um evento internacional gera receita para a cidade expressivamente maior que o valor investido pelo poder público. É por saber disso que a Fórmula 1 resolveu cobrar pelo menos 20 milhões de euros de taxa pela corrida a partir de 2021. Numa corrida por status político, o governo do Rio topou pagar mais de R$ 100 milhões ao ano, via Lei de Incentivo ao Esporte. São Paulo, ao que tudo indica, não.

Assim, São Paulo fica sem a Fórmula 1 e sem o compromisso de investir mais de R$ 40 milhões por ano, mas com uma oportunidade única de mudar radicalmente seu compromisso com o esporte. Seja por falta de vontade política, por falta de credibilidade de dirigentes ou porque quase todo o dinheiro disponível ia para F1, fato é que na última década São Paulo deixou de ser um polo de atração de eventos esportivos, recebendo quase que somente torneios de futebol atribuídos ao Brasil como país: Copa do Mundo, Copa das Confederações, Copa América.

Já em busca de reverter esse cenário, o ano passado, a prefeitura fez dois testes. Ao invés de firmar convênios com entidades do terceiro setor, o que demanda maior burocracia e prestações de conta que no passado deram dores de cabeça terríveis, entrou como patrocinadora de dois eventos. Deu R$ 1,7 milhão para uma agência trazer a São Paulo o Mundial de Skate da SLS, que ocorreu no Anhembi, e R$ 1 milhão à Confederação Brasileira de Rúgbi (CBRu) por um amistoso internacional no Morumbi.

Nenhum dos dois passou de primeira no teste, é verdade. Nos relatórios da SPTuris aparece que o Mundial de Skate movimentou pouco mais de R$ 500 mil (menos de 1/3 do investido pela prefeitura) e nem existem contas sobre o jogo de rúgbi,.Mas em ambos os casos quase 100% dos entrevistados disseram que a prefeitura deveria continuar investindo em eventos do tipo. Para a SPTuris, o Mundial de Skate “foi um sucesso e possui potencial para crescimento”.

Com os R$ 40 milhões antes destinados à F1 é possível fazer uma revolução no cenário esportivo da cidade de São Paulo. Hoje a capital paulista é única grande metrópole mundial sem uma maratona de fato internacional, com número expressivo de turistas estrangeiros – sequer há pesquisa da SPTuris sobre isso, como não havia sobre o Brasil Open de Tênis, que também foi embora da cidade. Agora há dinheiro para investir em promoção e em infraestrutura para ter uma boa maratona, um bom torneio de tênis.

É relativamente barato ter um Grand Slam de Judô (Brasília investiu R$ 3 milhões) ou uma etapa da Liga das Nações de Vôlei (o Mato Grosso do Sul reserva R$ 1,3 milhão), mas a decisão de continuar investindo o dinheiro da F1 no esporte é política e depende do lobby de um setor desorganizado, desunido e desinteressado. Num passado não muito distante, São Paulo tinha um bom calendário de eventos esportivos internacionais, financiado pela Secretaria Estadual do Esporte. A fonte secou, a secretaria virou um penduricalho no governo, e ninguém chiou.

Hoje São Paulo não faz questão sequer de sediar competições nacionais, que são baratas para a cidade sede e ajudam a promover o esporte. O calendário municipal tem quase que exclusivamente eventos de lutas marciais financiados por emendas de deputados e vereadores.

São Paulo precisa olhar o esporte não apenas como ação social, mas também como investimento, exatamente como vê a F1. Para isso, é sim necessário no mínimo reformar o complexo do Ibirapuera (ginásio e estádio), mas também olhar com maior carinho para o bom ginásio do Pacaembu, que poderia ser palco de competições internacionais de tênis de mesa e taekwondo, por exemplo, e para a recém-reformada pista de atletismo do Centro Olímpico. O novo descampado do Anhangabaú daria uma ótima pista para um torneio de salto com vara, no país do campeão olímpico.

Cidades do mundo todo disputam bons eventos internacionais não só porque eles atraem turistas, mas porque movimentam a economia local, geram entretenimento para a população local e promovem as cidades de forma constante. Se quer ser uma metrópole global, São Paulo precisa voltar a ocupar esse espaço.

Fonte