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Há 30 anos, entre recordes e muitos gols, Real Madrid levantava o penta espanhol da Quinta del Buitre

Com uma equipe que marcou época no futebol espanhol, há 30 anos o Real Madrid confirmava seu 25º título de La Liga, completando um penta que só os próprios merengues haviam levantado antes no país, nos anos 1960. Além de marcar a última grande conquista da lendária “Quinta del Buitre” e assistir ao mexicano Hugo…

Com uma equipe que marcou época no futebol espanhol, há 30 anos o Real Madrid confirmava seu 25º título de La Liga, completando um penta que só os próprios merengues haviam levantado antes no país, nos anos 1960. Além de marcar a última grande conquista da lendária “Quinta del Buitre” e assistir ao mexicano Hugo Sánchez igualar o recorde histórico de gols numa temporada, aquela campanha de 1989/90 registrou alguns números impressionantes, incluindo um nunca mais visto no país, mesmo em tempos de Messi e Cristiano Ronaldo.

O contexto

Nem sempre, porém, a temporada se desenrolou em céu de brigadeiro (ou de merengue) ao Real Madrid. Antes de deslanchar, a equipe conviveu com reformulações, atritos, baques e atuações irregulares no primeiro terço da campanha, mesmo vindo de um tetracampeonato com direito a dobradinha (Liga e Copa do Rei) em 1988/89. Em parte, pela mudança de comando, depois que o holandês Leo Beenhakker decidiu deixar o clube após vencer as três últimas ligas.

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Ocorre que seu substituto, o galês John Toshack, havia criticado alguns jogadores merengues no ano anterior, em especial os de defesa, afirmando que com eles o clube não conquistaria a Copa dos Campeões. Quando sua contratação começou a ser aventada, o meia-armador Míchel – um dos craques da equipe e um dos símbolos do clube – disse à imprensa que, caso o treinador assinasse, teria de se retratar aos atletas os quais havia alfinetado.

Ex-atacante do Liverpool nos anos 70, quando formou dupla prolífica com Kevin Keegan, Toshack vinha de fazer bom trabalho na Real Sociedad naquela segunda metade da década, promovendo uma reformulação na equipe ao mesclar alguns veteranos do bicampeonato espanhol de 1981/82 com jovens valores. Em 1987 venceu a Copa do Rei, chegando ao vice-campeonato da Liga na temporada seguinte e às quartas de final da Copa da Uefa em 1988/89.

Em menor escala, era o tipo de trabalho a ser feito nos merengues, que naquele 1989 haviam se despedido de alguns nomes emblemáticos daquela sequência de conquistas – e de sua história. Primeiro, o líbero Antônio Maceda entregou de vez os pontos em sua luta contra uma lesão no joelho direito sofrida defendendo a Espanha ainda na Copa do Mundo de 1986. Após passar por três cirurgias sem resolver o problema, pendurou as chuteiras aos 31 anos.

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Houve ainda a aposentadoria de um nome que se confundiu com o do clube ao longo das décadas de 1970 e 1980: o veterano lateral-esquerdo José Antonio Camacho, 34 anos de idade, 16 de clube e mais de 600 partidas com a camisa merengue. E ainda a saída do meia Ricardo Gallego, outro nome experiente e de seleção espanhola, que não esquentou lugar com Toshack e logo fez as malas para defender a Udinese na milionária Serie A italiana.

Além das baixas, o elenco do Real Madrid também pedia reforços para enfrentar a crescente ameaça do Barcelona treinado por Johan Cruyff, o qual mantinha a boa base que levantara a Copa do Rei em 1988 e a Recopa Europeia em 1989, somada a dois nomes de peso trazidos para aquela campanha: o líbero holandês Ronald Koeman, do PSV, e o meia-atacante dinamarquês Michael Laudrup, que vinha de passagem não muito feliz pela Juventus.

O início turbulento

Assim, Toshack tratou de montar uma equipe defensivamente sólida, mas sem perder poderio ofensivo. Lançou mão de um esquema 3-5-2 (em voga na época) e, talvez procurando referendar suas críticas antes de assumir o cargo, trouxe apenas dois zagueiros como reforços dignos de nota. Um deles era o vigoroso Fernando Hierro, revelação do Valladolid. E o outro era o argentino Oscar Ruggeri, campeão mundial no México em 1986 e comprado do Logroñés.

Atrás dos dois reforços para o miolo de zaga jogaria – pelos planos iniciais de Toshack – o clássico meia alemão Bernd Schuster fazendo a função de líbero. E, empurrado para a frente da defesa como volante, entraria o zagueiro Manuel Sanchís. Esta configuração, no entanto, seria uma das polêmicas criadas pelo galês no início de sua passagem. Sem mostrar resultado e provocando desconfiança, a inversão de papeis acabou desfeita ao longo da campanha.

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Por fim, houve ainda a queda precoce na Copa dos Campeões e, para jogar mais sal na ferida, diante do mesmo algoz da temporada anterior: o Milan. Após superarem o fraquíssimo Spora de Luxemburgo na primeira fase com um 9 a 0 no agregado, os merengues foram levados pelo sorteio a reencontrar os rossoneri logo nas oitavas de final, menos de seis meses após a amarga derrota por 5 a 0 no San Siro nas semifinais da edição anterior.

Desta vez, porém, em vez de goleada houve polêmica. No jogo de ida, em Milão, Rijkaard abriu o placar de cabeça para o Milan logo aos oito minutos. E aos 14, viria o segundo, num lance muito contestado pelos espanhóis: Van Basten recebeu uma bola recuperada pelo mesmo Rijkaard na intermediária madridista e arrancou, sendo derrubado por Buyo na meia-lua. O árbitro, porém, apontou pênalti, convertido sem problemas pelo centroavante.

O Real até equilibrou as ações no restante da partida, em especial no segundo tempo, mas não conseguiu diminuir o placar, seguindo em grande desvantagem para o jogo de volta. No Santiago Bernabéu, Butragueño abriu o placar pouco antes no intervalo, emendando de peixinho uma bola de Julio Llorente que acertou a trave. Mas a remontada, que havia ficado ainda mais difícil com a expulsão de Sanchís aos 30 minutos da etapa final, acabou não vindo.

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A eliminação foi seguida por uma derrota por 2 a 1 para a Real Sociedad, ex-clube de Toshack, no País Basco, resultado que encerrou a sequência oscilante de início de temporada. Nos dez jogos iniciais, a equipe havia parado em empates sem gols nas visitas ao Castellón e ao Mallorca. E havia também sido derrotada de virada no Superclássico do Camp Nou, no qual Ronald Koeman marcou duas vezes de pênalti para dar a vitória de 3 a 1 ao Barcelona.

Em casa, porém, havia vencido todas as cinco partidas até ali, e de maneira categórica, quando não acachapante. Na estreia, um tranquilo 2 a 0 sobre o Sporting de Gijón. Na terceira rodada, o futuro vice-campeão Valencia seria destroçado por impiedosos 6 a 2. O Cádiz e o Malaga foram batidos por 4 a 1 e 4 a 0 em suas visitas ao Bernabéu. E o bom time do Sevilla, com Rinat Dasaev sob as traves, voltara para a Andaluzia com um sonoro 5 a 2 na bagagem.

Um sólido time-base

O bom desempenho como mandante, que compensava a trajetória mais irregular fora de casa, e os tropeços imperdoáveis do principal oponente, o Barcelona, fizeram com que os merengues alcançassem a liderança isolada já na oitava rodada, ao baterem o Rayo Vallecano por 2 a 1 no campo adversário – sua única vitória como visitante na sequência inicial. Dali em diante, a equipe se acertaria, com escalação e padrão de jogo bem definidos.

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O goleiro era o experiente Francisco “Paco” Buyo, considerado por vezes um tanto espetaculoso, mas dotado de agilidade e reflexos impressionantes (“O Gato de Betanzos” era seu apelido, em referência à cidade da Galícia onde nascera). Projetado pelo Sevilla, pelo qual havia estreado na elite espanhola e chegado à seleção (esteve como reserva nas Eurocopas de 1984 e 1988), era o dono da camisa 1 dos merengues desde a temporada 1986/87.

Na ala direita havia Miguel Porlán, “Chendo”, cria da prolífica base merengue dos anos 1980. Seguro na marcação e competente no apoio, vinha se firmando como titular na seleção, após ter estado como reserva na Copa de 1986. Já na esquerda, o veterano Rafael Gordillo voltava a brilhar numa posição ao seu feitio – ele que ao longo da carreira transitara entre a lateral e a meia pelo lado. Valente no apoio e preciso nos cruzamentos, era uma das armas do time.

O trio de zagueiros tinha os já citados Fernando Hierro e Oscar Ruggeri como centrais, uma dupla firme, de bom porte físico e que jogava sério. Manuel Sanchís, prata da casa, filho de outra lenda do clube (e de mesmo nome) e um dos integrantes da histórica “Quinta del Buitre”, começou a campanha como volante, mas logo voltava a ser o líbero. Jogador que combinava raça e técnica, tinha ótima saída de jogo e um estilo elegante de conduzir a bola.

A boa proteção e compactação da defesa permitia ao meio-campo ser fundamentalmente técnico e criativo. Os três armadores esbanjavam talento, visão de jogo e qualidade com a bola nos pés. Pelo centro jogava o alemão-ocidental Bernd Schuster, trazido sem custos do Barcelona em 1988 após o fim de seu contrato com os catalães. Meia polêmico e um tanto temperamental, tinha, no entanto, um ótimo passe e era preciso nos lançamentos.

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Pelos lados, brilhavam outros talentos surgidos na base madridista e que integravam a “Quinta del Buitre”: o meia-direita era Miguel González, “Míchel”, armador de futebol refinado, ótimo passe e chute forte de longa distância, e que figurava com frequência na mira de clubes italianos. Já do lado esquerdo atuava Rafael Martín Vázquez, também habilidoso, de bom passe, muito dinamismo e que demonstraria capacidade de marcar muitos gols.

Na frente, uma dupla histórica. Emílio Butragueño emprestava seu apelido (“El Buitre”) à Quinta de talentos da base. A aparência frágil e mirrada escondia um jogador esperto, ágil, driblador e muito eficiente na armação de jogadas e na conclusão. Um dos melhores atacantes europeus de sua geração. E o mexicano Hugo Sánchez era um goleador tão voraz quanto prático: precisava de poucos toques na bola para chegar às redes. Um exímio finalizador.

Deslanchando após a tempestade

Nas 28 rodadas seguintes até o fim da temporada, o time somaria 21 vitórias e sete empates, nadando de largas braçadas rumo ao título, confirmado ainda com quatro jogos por fazer. De modo que narrar aquela trajetória de maneira cronológica seria até um tanto burocrático e talvez enfadonho. Incompatível, portanto, com o futebol exuberante demonstrado por aquela equipe. Mas são muitos os números e momentos de brilho a merecerem destaque.

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Especialmente em seus domínios: jogando no Santiago Bernabéu, a equipe venceu nada menos que 17 dos 19 jogos, empatando os outros dois (somou 36 pontos em 38 possíveis, portanto). E, nesse processo, balançou as redes absurdas 78 vezes. Média superior a quatro gols por jogo, e que permanece como recorde histórico na liga com 20 clubes, não alcançada nem mesmo pelo Barcelona de Messi ou pelo próprio Real Madrid de Cristiano Ronaldo.

A marca, que até hoje passou imune pelos dois tratores quebradores de recordes, foi obtida graças a uma volúpia artilheira impressionante. Apenas em duas das 19 partidas em casa os merengues deixaram menos de três gols nas redes adversárias. Naqueles dias entre setembro de 1989 e maio de 1990, os torcedores blancos que compareceram ao Bernabéu não puderam reclamar: foram brindados com toneladas de gols, muitos de belíssima feitura.

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“Não sei explicar como jogávamos, mas cada vez que vejo vídeos daquela época, me assusto. Eu me via em situações até como centroavante, defendendo pela direita, atacando pelo meio. Era um ataque total. Não parávamos. No Bernabéu, vencíamos por 3 a 0 e pensávamos: ‘Vamos descansar um pouco’. Mas quando recuávamos a bola, todo o estádio nos vaiava. Nos exigiam gols e mais gols”, relembrou Gordillo numa entrevista ao El País em 2012.

Já nos três primeiros jogos da sequência invicta, o time mostraria poder de reação e muito apetite por gols, além de um toque de classe. A goleada de 4 a 0 sobre o Athletic Bilbao no Bernabéu foi aberta com um bonito gol de Míchel, com a bola de pé em pé e o corta-luz de Hugo Sánchez após a assistência de Butragueño. Dois tentos de Hugo Sánchez e um raro gol de Chendo (apenas o seu segundo pelos merengues até ali) completaram o placar.

Oito dias depois, na visita ao perigoso Tenerife, o time conseguiu uma virada épica: Butragueño abriu o placar aos 45 do primeiro tempo, mas os locais empataram ainda nos acréscimos. Na volta do intervalo, uma cabeçada do brasileiro Guina (ex-Vasco) logo no primeiro ataque colocou o time das Ilhas Canárias em vantagem, sustentada até os 35 minutos, quando Hugo Sánchez apareceu para o resgate, com dois gols – o segundo aos 45.

De goleada em goleada

No jogo seguinte, os merengues receberiam o bom time do Zaragoza de Radomir Antic, sexto colocado, e que tinha como um de seus destaques o ponta Miguel Pardeza, único integrante da “Quinta del Buitre” que não vingou no Bernabéu. Além dele, os Maños contavam com nomes de seleção espanhola, como os meias Juan Antonio Señor e Francisco Villarroya, mais o atacante búlgaro Nasko Sirakov. Sob as traves, um paraguaio chamado José Luís Chilavert.

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E o arqueiro guarani não seria poupado: já no primeiro tempo, buscaria a bola por cinco vezes no fundo de suas redes. Míchel abriu o placar com uma cabeçada logo aos quatro minutos. Sanchís, também de cabeça, ampliou aos 20. Higuera descontou logo em seguida, mas o massacre seguiu: Butragueño escorou cruzamento de Gordillo e fez o terceiro. Martín Vázquez, por entre as pernas de Chilavert, anotou o quarto. E Hugo Sánchez, de falta, fez o quinto.

Na etapa final, após o Real Madrid ter um pênalti claro em Míchel ignorado pelo árbitro, Higuera voltou a diminuir o prejuízo para o Zaragoza aos cinco minutos, mas, no apagar das luzes, ainda houve tempo para mais dois gols merengues, com Hugo Sánchez batendo cruzado e rasteiro para desviar de Chilavert aos 43 e com uma bomba de Martín Vázquez – de pé direito, de fora da área, no ângulo – aos 44 minutos, para fechar em 7 a 2 a goleada avassaladora.

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Ainda antes do fim do primeiro turno, o Real Madrid distribuiu goleadas sobre o Valladolid (4 a 0) e o Osasuna (4 a 1) e obteve ainda seu placar mais dilatado como visitante, 5 a 1 sobre o Logroñés, do goleiro argentino Luis Alberto Islas, do ponta uruguaio Antonio Alzamendi, e de dois nomes com passagem pela seleção espanhola: o meia-armador Quique Setién (ex-Atlético de Madrid) e o centroavante Manuel Sarabia (ex-Athletic Bilbao).

A partida no Estádio de Las Gaunas teve belíssimos gols. Hugo Sánchez anotou uma tripleta e Butragueño marcou o quinto. Mas nenhum deles mais bonito que o de Sanchís. Recebendo um cruzamento de Gordillo, o líbero merengue ajeitaria a bola e passaria de letra para Schuster, que devolveria na frente ao zagueiro para se livrar da marcação e finalizar na saída de Islas. No fim, Quique Setién descontou para os riojanos cobrando pênalti.

Também quase no fim daquele turno viria o primeiro clássico de Madri, uma partida quente no Bernabéu, com dez cartões amarelos (seis para os merengues e quatro para os colchoneros) e um vermelho (para Ruggeri, perto do fim do jogo). Mas que também não faltaram emoções com bola rolando: logo aos sete minutos, Martín Vázquez já havia balançado as redes duas vezes para os donos da casa, em uma delas com um chutaço da intermediária.

Os colchoneros, que contavam com os brasileiros Donato e Baltazar e o português Paulo Futre, além do atacante Manolo, sensação recente da Espanha, diminuíram no começo da etapa final com o defensor Eugenio Bustingorri, e a partida ficou indefinida. Até que o talento de Schuster decidiu a parada aos 29 minutos: um bonito corte em um defensor do Atleti e um forte chute de pé direito, no canto do goleiro Agustín Elduayen.

Disparando na ponta

O turno seria encerrado com a vitória sobre o Oviedo de Javier Irureta nas Astúrias pelo placar mínimo, num gol de oportunismo de Butragueño, aproveitando a furada do zagueiro. Com aquele resultado, os merengues abriam seis pontos de frente sobre Barcelona e Atlético de Madrid, além de sete sobre Valencia, Osasuna e Real Sociedad. Em tempos de dois pontos por vitória, já era uma vantagem bastante folgada. E ela aumentaria no returno.

A segunda metade do campeonato começaria também nas Astúrias e com Hugo Sánchez de novo aparecendo para evitar uma derrota, desta vez diante do bom Sporting de Gijón, naquele tempo um adversário sempre complicado de ser enfrentado em seus domínios. A cinco minutos do fim, o mexicano escorou de cabeça um cruzamento de Butragueño para decretar o empate, depois que o zagueiro Abelardo havia aberto a contagem ainda no primeiro tempo.

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Na rodada seguinte, o time voltaria a aplicar uma surra de sete, desta vez no Castellón – contra quem, ironicamente, havia empatado sem gols no jogo de ida. Butragueño completou uma rápida troca de passes para abrir o placar. Schuster, de falta, fez o segundo. Martín Vázquez anotou um em cada tempo. E no fim, Hugo Sánchez ainda apareceu com mais uma tripleta, balançando as redes aos 24, 42 e 44 minutos, para o desespero do pobre goleiro Emilio.

No próximo jogo em casa, porém, a equipe tropeçaria pela primeira vez diante de sua torcida, ao parar no empate em 1 a 1 diante do Mallorca – que acabaria a temporada como única equipe a não ser derrotada pelos merengues, sofrendo apenas um gol nos dois confrontos. Travados pelas boas atuações do goleiro marroquino Zaki e do zagueiro Miguel Ángel Nadal, os madridistas ainda perderam Hugo Sánchez, expulso na etapa final.

Vitória num quente Superclássico

E qual foi a reação da equipe após o inesperado mau resultado? Seis vitórias seguidas, incluindo o Superclássico diante do Barcelona, na revanche da derrota do turno no Camp Nou. Assim como diante do Atlético, foi outra partida nervosa, com entradas duras de parte a parte. O Real Madrid chegou a abrir três gols de frente: Míchel abriu o placar aos 24 minutos e Butragueño ampliou no rebote de uma falta cobrada por Hugo Sánchez na trave.

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Na etapa final, logo de saída, El Buitre recebeu de Míchel na área e foi derrubado por Zubizarreta. Pênalti batido e convertido por Hugo Sánchez. O Barça reagiu e descontou duas vezes com Julio Salinas. E ainda marcou um terceiro, anulado por falta em Buyo. Já os merengues reclamaram de dois pênaltis: um por toque de mão de Luís Milla no primeiro tempo e outro quando o zagueiro brasileiro Aloísio derrubou Martín Vázquez na etapa final.

Os blaugranas ainda terminariam o jogo com nove jogadores: nos minutos finais, o líbero holandês Ronald Koeman acertou um pontapé por trás no ponteiro “Paco” Llorente e recebeu o vermelho. Quase em seguida foi a vez de Aloísio, que deu uma cabeçada em Martín Vázquez. Com a vitória, o Real Madrid mantinha seus seis pontos de vantagem na liderança (40 contra 34 do Atlético), enquanto o Barcelona descia para a quarta colocação, nove pontos atrás.

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Naquela sequência, os merengues ainda registrariam uma tranquila vitória na visita ao Cádiz (3 a 0, com um belo gol de Martín Vázquez, concluindo uma série de toques de primeira após receber passe de calcanhar de Míchel), dois importantes triunfos como visitante sobre o Málaga e o Sevilla (ambos por 2 a 1), além de golear o Rayo Vallecano (5 a 2) e de conseguir sua revanche também contra a Real Sociedad, com um categórico 3 a 0 no Bernabéu.

A vitória sobre o Sevilla no Ramón Sánchez-Pizjuán veio em outra virada marcante daquela campanha. O Real Madrid criou logo de cara uma boa oportunidade, com Sanchís acertando a trave de Dasaev, mas quem abriria o marcador seriam os donos da casa, quando o uruguaio Pablo Bengoechea recebeu nas costas da defesa e tocou na saída de Buyo. O arqueiro madridista ainda teve de fazer dois milagres em finalizações do centroavante austríaco Toni Polster.

Mas a história do jogo começou a mudar aos 39 minutos do segundo tempo, quando o ponteiro “Paco” Llorente – reserva bastante utilizado e sobrinho do lendário Francisco Gento – desceu pela esquerda e cruzou da linha de fundo para Butragueño escorar e empatar. E, três minutos depois, a virada chegaria numa cobrança de falta perfeita de Hugo Sánchez, no ângulo de Dasaev, que se esticou todo, mas não conseguiu deter o chute colocado do mexicano.

Com a mão na taça

Ao fim daquela sequência de vitórias, com o triunfo sobre a Real Sociedad pela 29ª rodada, os madridistas já chegavam a 48 pontos ganhos, dez a mais que os três que dividiam a vice-liderança, Barcelona, Atlético de Madrid e Valencia. Um empate em 1 a 1 diante do Athletic Bilbao no San Mamés em 17 de março pôs fim à série, mas não atrapalhou a caminhada dos merengues, que logo voltaram a empilhar pontos e gols.

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A reta final começou com um 5 a 2 no Tenerife, placar que poderia ser ainda mais dilatado não fossem algumas defesas magníficas do goleiro uruguaio Javier Zeoli e um pênalti escandaloso em Hugo Sánchez, agarrado dentro da área, ignorado pelo árbitro. E seguiu com a vitória pelo placar mínimo diante do Zaragoza em La Romareda, decidida com bonito gol de Adolfo Aldana, um talentoso armador reserva, em arrancada desde o meio-campo.

No dia 8 de abril, um fácil 3 a 0 sobre o Celta, com gols de Sanchís, Míchel e de outro reserva, o jovem atacante Losada, deixou os merengues com a mão na taça. Com 55 pontos ganhos a cinco rodadas do fim, o Real Madrid já não podia mais ser alcançado por Barcelona e Valencia. Apenas o Atlético seguia com chances matemáticas – desde, é claro, que vencesse todos os seus jogos e os blancos perdessem todos, além de descontar a enorme diferença de saldo.

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Assim, seria com um simples 0 a 0 – irônico para uma equipe tão goleadora – obtido uma semana depois na visita ao Valladolid que o Real Madrid confirmaria a conquista já esperada por todos. Com quatro partidas ainda por jogar, restava apenas a busca pelos recordes. Naquela altura, o time contabilizava 94 gols marcados e queria chegar aos 100. Hugo Sánchez, por sua vez, havia marcado 33 gols e desejava superar outra marca histórica.

Goleador das quatro edições da liga entre 1985 e 1988 (a primeiro delas, ainda pelo Atlético), o mexicano havia sido superado na temporada 1988/89 pelo brasileiro Baltazar, novo artilheiro colchonero, que balançara as redes 35 vezes, ficando a três de igualar o recorde do lendário Telmo Zarra pelo Athletic Bilbao em 1951. Superar Baltazar, igualar Zarra e deixar para trás o austríaco Polster, seu novo perseguidor, seria agora a meta do atacante merengue.

E ele já anotaria mais dois no jogo imediatamente posterior ao da conquista do título, em casa, diante do Logroñés, que resolveu engrossar após ter sido goleado em seus domínios no primeiro turno. O time riojano marcou duas vezes com apenas dez minutos de partida. Hugo Sánchez empatou com um gol em cada tempo, mas logo os visitantes de novo passaram à frente. Até que Losada anotou o terceiro dos merengues selando o movimentado empate.

Hugo passou em branco diante do Osasuna em Pamplona (Martín Vázquez anotou os dois na vitória por 2 a 0) e ficou de fora no clássico de Madri no Vicente Calderón, quando os merengues entraram com o time quase todo reserva, promovendo inclusive a estreia nos profissionais de seu terceiro goleiro, um certo Julen Lopetegui. Dos titulares, apenas Chendo, Gordillo, Míchel e Hierro participaram do dérbi. E o zagueiro se destacaria.

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Jogando em casa, os colchoneros saíram para o intervalo com uma confortável vitória parcial por 3 a 1, gols de Baltazar, Orejuela e Manolo. Hierro descontou para os merengues. Mas na etapa final, o mistão do Real reagiu: Aldana insistiu duas vezes no passe para Losada, até que a bola chegou ao atacante, que fuzilou o goleiro Abel Resino. E no último minuto, em cobrança de falta, Hierro acertaria um de seus famosos petardos para empatar o jogo.

O primeiro gol do zagueirão naquele dia – uma cabeçada no rebote de um toque no travessão, em meio a um bate-e-rebate na área gerado por um escanteio – havia sido o centésimo do clube naquela campanha da liga. Ali, naquele 28 de abril, a marca com a qual os merengues já haviam flertado nas duas temporadas anteriores, ao anotarem 95 gols em 1987/88 e 91 em 1988/89, era ultrapassada pela primeira vez na história do campeonato.

Quebrando recordes

Faltava agora o recorde de Hugo Sánchez. “A última partida foi contra o Oviedo no Bernabéu, e já estávamos comemorando. O técnico não colocou todos os titulares, mas me faltavam pelo menos três gols para igualar a marca histórica, 38, de Zarra. Antes de entrar em campo, pedi a meus companheiros que me ajudassem a alcançar o recorde. Persegui o objetivo até o fim. Foi um ano inesquecível”, relembrou o mexicano também ao El País.

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No fim, missão cumprida. No passeio de 5 a 2 sobre os ovetenses, o meia reserva Parra até quase estragou o combinado, antecipando-se a Hugo para escorar o cruzamento da esquerda e marcar o primeiro dos merengues aos 15 minutos, depois que os visitantes haviam aberto o placar com Jordi Vinyals. Mas logo o mexicano começou sua tripleta, convertendo um pênalti com um chute forte e alto, sem chances para o goleiro Sabino Zubeldia aos 36 minutos.

Na etapa final, logo no primeiro minuto, Hugo se intrometeu entre os zagueiros asturianos para marcar de cabeça o seu segundo e o terceiro do Real Madrid no jogo. O Oviedo descontou com o atacante Carlos cobrando pênalti, mas o artilheiro merengue logo apareceu de novo, sozinho, com o gol vazio, para anotar seu terceiro na partida e 38º na liga. O gol do recorde. No fim, ainda houve tempo para Aldana fechar a contagem em 5 a 2.

Os números eram incontestáveis e inolvidáveis: 38 jogos, 26 vitórias, dez empates e só duas derrotas. Foram 107 gols marcados – mais que o dobro do obtido por 15 dos outros 19 times da liga – e 38 sofridos (Mallorca e Sporting Gijón foram os menos vazados, com 34). Além dos 38 gols de Hugo Sánchez (todos anotados com apenas um toque na bola e comemorados com sua tradicional cambalhota) em 35 partidas, outros goleadores se destacaram.

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Em uma temporada surpreendentemente não tão prolífica de Butragueño (que marcou “só” uma dezena de vezes), Martín Vázquez terminou como o vice-artilheiro da equipe, anotando 14 gols, muitos em chutes de fora da área. Míchel balançou as redes oito vezes e Hierro, sete. E há de se destacar o desempenho de alguns reservas: em apenas 12 jogos, jogando de início em oito deles, Losada também fez oito gols. Aldana, por sua vez, fez cinco em 13 jogos.

Quase todas as marcas espetaculares envolvendo aquele Real Madrid levaram mais de 20 anos para serem batidas. O recorde de gols de Hugo Sánchez seria superado por Cristiano Ronaldo em 2011. Já os 107 tentos da equipe seriam batidos pelos próprios merengues ao marcarem ainda mais absurdos 121 gols em 2011/12. De todo modo, o simples fato de tê-las estabelecido basta para incluir aquele esquadrão entre os lendários do futebol espanhol.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal

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