TORCIDA

‘Joga y joga’, ‘El Mago’? Entenda a torcida dos jogadores e do público de futebol por Felipe Prior no BBB20

Com a falta do futebol devido à quarentena imposta por conta do surto da COVID-19, os amantes do esporte tiveram que achar outra forma de se entreterem. E foi no Big Brother Brasil 20, reality show do Grupo Globo. Não só o público, mas também jogadores renomados como Neymar, Douglas Costa, Paquetá, Vinícius Júnior, entre…

Com a falta do futebol devido à quarentena imposta por conta do surto da COVID-19, os amantes do esporte tiveram que achar outra forma de se entreterem. E foi no Big Brother Brasil 20, reality show do Grupo Globo. Não só o público, mas também jogadores renomados como Neymar, Douglas Costa, Paquetá, Vinícius Júnior, entre outros craques declararam apoio a Felipe Prior, um dos participantes do programa, apelidado carinhosamente pelos telespectadores de ‘El Mago’.

Além desses, Richarlison, Gabigol e Pepê, do Grêmio, prometeram sortear camisas caso Felipe permanecesse no programa (o que não ocorreu). A disputa movimentou as redes sociais entre Prior e Manu Gavassi. O assunto foi tema desde domingo, dia em que o paredão foi formado, e, na última terça-feira, veio a notícia de que foram contabilizados mais de 1,5 bilhão de votos. E o público decidiu eliminar o ‘Mago’.

Com argumentos contra e a favor do ‘brother’, há quem diga que o jogo perdeu a graça com a eliminação do arquiteto. Foi o caso de Neymar e Gabigol, que disseram que não acompanhariam mais o programa. As atitudes de Prior, porém, foram consideradas machistas por boa parte do público. O paulista era o último do grupo que ficou marcado pelas falas que objetificavam as mulheres que estavam no programa. Ele também chegou a dizer que grita com a mãe e, ao ser eliminado, ouviu de Tiago Leifert, apresentador do reality show, o conselho de não cometer mais esta atitude.

Nina Tedesco, professora da UFF e que investiga relações entre direção de fotografia, gênero e sexualidade, explicou um pouco da torcida exacerbada dos jogadores por Prior.

– O futebol é sabidamente um meio muito machista. Até hoje nunca tivemos nenhum jogador brasileiro profissional que atue na série A que tenha se assumido gay ou bissexual. E infelizmente ao longo dos anos vemos práticas e falas machistas de muitos destes homens que ascendem socialmente e ganham tanto dinheiro que podem comprar quase tudo o que querem. Então não surpreendem que uma mulher feminista incomode. Uma mulher que acredita nas outras mulheres, que critica como as mulheres são sempre taxadas de loucas. Um mulher que tem um apoio considerável entre o público LGBTQI+. Uma mulher que critica esse universo predominantemente masculino do futebol, onde as mulheres não são tratadas como iguais, e a própria infantilidade de alguns jogadores que parecem meninos mimados e sem limites.

Disputa entre Manu e Prior acirrou redes (Foto: Reprodução/TV Globo)

Tedesco ainda comentou sobre a dificuldade de se recordar de onde vem e manter a cabeça no lugar quando se possui fama e dinheiro.

– Quando se ganha muitos milhões por ano a pessoa tem uma flexibilidade para fazer o que quer muito maior que a das pessoas comuns. E no caso do futebol muitos são famosos e admirados em todo o mundo. Tem que ter a cabeça muito no lugar pra não achar que pode fazer tudo, que tem que seguir as mesmas regras, que tem que ter respeito e empatia. Nem todos conseguem. Aí vários esquecem suas origens de classe e de raça e se identificam com o cara branco, cisgênero, heterossexual que diz que odeia vitimismo, que é sincero mesmo, que grita.

Sobre a repercussão por causa da ausência do esporte no momento, a professora acredita que um não interfira no outro, uma vez que muitos famosos também se posicionaram, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e a atriz Bruna Marquezine, que é amiga pessoal da cantora.

– Acho que não, que teria tido quase a mesma repercussão se o futebol estivesse funcionando regularmente. A Bruna Marquezine se engajou na disputa, ainda que tardiamente o Eduardo Bolsonaro também. Um outro ponto que queria pontuar foi o discurso feito para a saída do Prior. Nele, o futebol foi fartamente mobilizado como elemento de diferenciação entre o que cada um é e representa. Isso diz muito do que é o futebol e dos estereótipos que ainda afetam o feminismo. Foram utilizadas metáforas de futebol, mencionado o apoio desse mundo ao Prior e se reforçou a falta de intimidade da Manu, apresentada como o oposto do Prior, com o futebol. Ao se fazer tudo isso, se associa ao universo do futebol os valores e práticas dele, não os dela. Ela é feminista e não tem proximidade com o futebol, mas não tem nenhuma relação causal nessas duas informações sobre a Manu. Ela poderia ser feminista e super engajada no futebol. Mas pelo machismo estrutural do futebol e por ideias preconcebidas do que é uma feminista se construiu um discurso como se uma coisa interferisse na outra.

Mônica Mourão, professora da ESPM-Rio, organiza o Grupo de Estudos Feministas e explicou mais sobre o assunto.

– O machismo é uma característica estrutural da nossa sociedade. É uma sociedade patriarcal que teve por muitos anos as mulheres de fora dos espaços públicos, da esfera política. Na mídia há uma repercussão desse machismo. Por outro lado, a Globo se coloca como uma liderança político-cultural na sociedade. Ela procura captar sentimentos coletivos e colocar isso na sua programação. A partir disso entendemos que os participantes vão também responder a essas demandas da sociedade de ter uma diversidade de gênero, raça, etc… – disse.

Mourão disse que já houve casos muito piores dentro do programa e que o público está acordando.

– É importante lembrar também que as mulheres nos BBB’s já foram algumas vezes vítimas de agressão, violência, houve até caso de estupro. Isso era colocado como “parte da atração”. Em 2017 houve a Emily e o Marcos Harter, que só depois de muita pressão do público, a Globo chamou a polícia porque ele estava prestes a agredir violentamente a Emily. Nesse mesmo ano, quando houve a #AgoraQueSãoElas, um movimento que começou com a Folha de São Paulo cedendo o espaço para uma mulher falar e vários veículos de mídia abriram espaço para que mulheres escrevessem. Tudo isso faz parte de uma mobilização do público dizendo indiretamente que não vai mais aceitar essas questões e esses posicionamentos – completou.

Por outro lado, Pedro Daniel Bezerra, criador do #FUTIRÃO (futebol + mutirão), e um dos administradores do perfil @CR7Brasil no Twitter (página foi a criadora da hashtag), diz que torcer para o Prior não significa concordar com todas as atitudes dele lá dentro, porque ele errou.

– Isso (dos jogadores) acabou chamando muito o público do futebol para acompanhar e comentar o programa. Tanto que muita das gírias em torno do Prior foram dadas pelo público do futebol. Eu não acho que foi uma questão de machismo, mas sim de se identificar com o jeito dele de ser jogador, de falar as coisas na cara, de dançar. Eu acho que ele errou muito lá dentro e foi conivente com algumas ações machistas dos amigos, mas não acho que por torcer para ele significa que eu apoie todas as ações dele ou não veja erro no que ele faz.

Para ele, o público do futebol apenas se identificou com o jogador, mas não teve a ver com o machismo.

– É uma questão complicada. Na minha opinião, eu não acho que houve machismo por parte dos jogadores de entrar na onda. Como a gente está em quarentena, não tem futebol e a única coisa que sobrou foi o Big Brother Brasil. E, querendo ou não, quem movimentava a casa era o Prior. Então, um jogador postou, já movimentou e levou outro (a postar), e acabou que o público do futebol seguiu e entrou na onda.

Após eliminação, Neymar e Prior trocaram mensagens no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram)

Daniel ainda apontou os pontos positivos do ‘Mago’ e os motivos para identificação com o jogador.

– Eu acho que o ponto positivo dele no programa é que ele agitava muito a casa, positivamente ou negativamente. Ele fazia o jogo “fluir”. Se dispôs a bater de frente contra o grupão, a forma com que ele encarava o jogo, de dizer que todos eram adversários e que o único que estava com ele era o Babu. Isso fez com que o público do futebol ficasse do lado dele. A maior parte dessas pessoas não veio do começo do programa, mas chegou com a carruagem andando, no momento que o Prior estava crescendo no jogo. As pessoas se viram representadas pelo “mais fraco”, porque na posição que ele estava eram os dois contra a maioria, sendo votados e indo para o paredão toda semana, então acho que as pessoas se identificaram com isso.

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