TORCIDA

Juazeiro da sorte

Juazeiro da sorte
Daniel Dórea | danieldorea@grupoatarde.com.br| Foto: Paulo Pinto | saopaulofc.net | Arte: Ag. A TARDE “Eu tenho uma estrela diferente”, cravou Daniel Alves Estreia numa nova posição, em retorno ao seu país após quase duas décadas. Gol marcado. Torcida louca na arquibancada, cantando seu nome. E o jogo ainda termina em 1 a 0. Perfeito, foi…

Daniel Dórea | danieldorea@grupoatarde.com.br| Foto: Paulo Pinto | saopaulofc.net | Arte: Ag. A TARDE

“Eu tenho uma estrela diferente”, cravou Daniel Alves

Estreia numa nova posição, em retorno ao seu país após quase duas décadas. Gol marcado. Torcida louca na arquibancada, cantando seu nome. E o jogo ainda termina em 1 a 0. Perfeito, foi mais um triunfo seu do que do próprio time.

“Eu tenho uma estrela diferente”, cravou Daniel Alves, depois da primeira partida oficial pelo São Paulo, contra o Ceará.

Ninguém duvida dessa estrela. “Saí da roça pra conquistar tudo que conquistei”. Esse é um ponto. É preciso luta, perseverança, sorte. Sim, sorte. Por que tamanha rejeição a essa palavra? Não me venham com discurso pronto de meritocracia, bobagem tremenda. A “estrela” citada por Daniel é uma outra forma de dizer que ele tem, além de muita competência, muita sorte. E é assim com todo mundo que tem sucesso, fama, carisma, que cativa quem está por perto.

No jogo deste domingo, ficou claro que o baiano não estava 100% confortável. Os quase 50 mil presentes ao Morumbi foram só para vê-lo, e isso não é comum em sua carreira. Daniel jamais foi protagonista, mas sempre um coadjuvante dos mais importantes. Digamos que ele experimentou essa sensação de forma inédita na última Copa América, quando ganhou a faixa de capitão de Neymar, cortado, jogou muita bola e foi eleito o craque do torneio, mesmo atuando como lateral, uma posição para coadjuvantes.

Jogadas de Daniel Alves na primeira partida pelo São Paulo

Deve ter gostado da nova condição. Tanto que, diante de tantas possibilidades na Europa para seguir como um ótimo ‘ajudante’ de craques, escolheu ser ele mesmo o craque do São Paulo. Vestiu a camisa 10 e foi adiantado para o meio-campo, no qual fez dupla de armadores com Liziero. O lado no desenho tático continuou sendo o direito, mas Daniel flutuou por todo o campo, como se pode ver no infográfico com o mapa de seus toques na bola, tirado do site Footstats.

Tecnicamente, o astro não teve nem de longe uma de suas melhores atuações. Tentou três lançamentos e três cruzamentos, errou todos. Nos passes, marcou um aproveitamento de 88%, baixo para os padrões de ex-atleta do Barcelona. Para jogar como um ‘10’, é nítido que Daniel ainda precisa apurar sua visão espacial. Com quatro perdas de posse de bola, foi o jogador mais desarmado do Tricolor paulista. Também ofereceu apenas um passe para finalização de um colega.

Isso não quer dizer que a estreia tenha sido negativa. Ela apresentou, pelo contrário, mais detalhes positivos. O principal é o desejo de atuar com leveza, quase como uma diversão, com a liberdade que não costuma ter de ocupar o campo de ataque. O técnico Cuca até comentou na entrevista que esperava uma maior participação de Daniel na construção desde o campo de defesa. Entretanto, seu brilho foi na parte final das jogadas, principalmente quando acompanhou lances construídos por outros atletas.

Foi assim que deu a primeira finalização do embate, com 30 segundos de bola rolando. E não teve nenhum receio de se colocar sempre como opção dentro da área. Não fosse essa postura, o gol não teria saído. No lance, sem nenhuma participação sua até o momento decisivo, Daniel avançou enquanto a transição era feita da defesa ao ataque pela direita, com o também estreante Juanfran, lateral como Dani. O espanhol rejeitou o cruzamento fortuito – opção mais querida aqui, no futebol brasileiro – e mandou um passe infiltrado, rasteiro, para o centroavante Raniel, que fez a parede para a chegada de Daniel Alves. E ele teve a técnica e frieza necessárias para dominar a bola meio quadrada, limpar a jogada e chutar com precisão.

O baiano disparou três finalizações no duelo. Ninguém das duas equipes fez mais que isso. Vou além. Esse é o número médio dos líderes do fundamento no Campeonato Brasileiro – a exemplo de Gabigol, do Flamengo (3,4), Cazares, do Atlético-MG (3,4), e Yoni González, do Fluminense (3,3). Daniel também acertou dois dribles, sendo líder neste quesito no jogo. Um lindo banho de cuia no meio-campo, símbolo de sua maestria e irreverência, levantou a galera já com a vantagem no placar, na segunda etapa.

Frutos e espinhos

É preciso, no entanto, tomar cuidado para que a felicidade de Daniel não se transforme num relaxamento. Sua participação defensiva na partida não foi relevante. Ele não executou nenhum desarme e, nas jogadas mais perigosas do Ceará, não apareceu entre os marcadores ativos. Cuca disse que, durante a partida, pensou em adiantar mais ainda o baiano, como ponta, provavelmente para ganhar mais consistência no meio.

Mas não, não acredito em dispersão. Daniel Alves é um lutador. É de Juazeiro, cidade que também é nome de árvore, de origem tupi. Vem de ajuá, que significa fruto colhido dos espinhos. É preciso inteligência, talento e sorte para colher sem se machucar. Dani tem os três.

Fonte

Redação SP

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