TORCIDA

No sertão da Bahia | Time mantido pela Universal proíbe brinco e forma para grandes clubes

No sertão da Bahia | Time mantido pela Universal proíbe brinco e forma para grandes clubes
Conta assim o Antigo Testamento: Abraão foi chamado por Deus para conduzir seu povo escolhido a Canaã, a terra prometida, um lugar rico em liberdade e felicidade. Há um ano, essa inspiração bíblica deu origem a um time de futebol: o Canaã Esporte Clube, em Irecê, na Bahia.A iniciativa é ligada à Igreja Universal do…

Conta assim o Antigo Testamento: Abraão foi chamado por Deus para conduzir seu povo escolhido a Canaã, a terra prometida, um lugar rico em liberdade e felicidade. Há um ano, essa inspiração bíblica deu origem a um time de futebol: o Canaã Esporte Clube, em Irecê, na Bahia.

A iniciativa é ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, e surgiu a partir de um projeto assistencial chamado “Nova Canaã”, pensado como um lugar de esperança em meio à pobreza e idealizado a partir de uma reportagem exibida na TV em 1998 sobre a fome do Nordeste.

Em pouco tempo, a equipe formada por jogadores ligados ao projeto já alcança alguns resultados expressivos em campo. Nos bastidores, há uma cartilha de comportamento para jogadores e torcedores, acordo com empresário que já chegou a colocar seis jogadores no Corinthians e planos cada vez mais ousados.

“Nada vos será impossível”?

O projeto atua no sertão da Bahia desde agosto de 2000. Oferecendo primeiro a educação no período da manhã e à tarde atividades esportivas e culturais. Futebol, judô, capoeira, dança, informática, reforço para quem precisa de reforço. O futebol sempre foi uma atividade. Nós vimos que já tinha alguns meninos se destacando, iam fazer testes no clube e ficavam. Pensamos: ‘por que não organizar um clube e dar uma oportunidade ainda maior?

Leonardo Santos, diretor do projeto Nova Canaã e do Canaã EC

Orientação é não usar brinco

Caio de brinco, mas fora da fazenda, em março

Imagem: Reprodução/Instagram

Os treinos do Canaã Esporte Clube ocorrem na fazenda em que fica o projeto assistencial – sete campos de futebol compõem a estrutura esportiva. No mesmo local ficam a escola, as plantações e também o centro religioso. Segundo apurou o UOL Esporte, os garotos não são obrigados a frequentar cultos. A maioria acaba indo por estímulo dos outros, mas não há registro de quem tenha sido punido por se ausentar. O goleador do clube, aliás, não é evangélico.

Em contrapartida, algumas orientações de comportamento são conhecidas. O uso de brincos pelos meninos, por exemplo, é vetado. “Todo lugar tem regras, né? Lá não pode usar brinco dentro da fazenda, porque é lugar que tem igreja. É a única coisa, assim, que eu não vi em outros clubes, que eles limitam. Mas é só dentro da fazenda. Saindo de lá você pode botar seu brinco tranquilo”, diz o atacante Caio Jambeiro, artilheiro do Canaã na Série B do Campeonato Baiano, com três gols, e autor do primeiro gol da história do clube em um jogo oficial.

Imagem: Divulgação

Há orientações sobre não falar palavrões em campo ou cometer muitas faltas nos adversários. Os xingamentos também estão vetados para os torcedores, pois não combinariam com o cristão. “Nós acreditamos que tudo na vida tem que ter disciplina para a pessoa ser bem-sucedida, então fazemos palestras sobre a vida e o desenvolvimento humano. Temos algumas regras, mas trabalhamos tão bem antes do campo que eles acabam assimilando. Até porque muitos têm origem humilde e nunca tiveram outro tipo de influência”, diz Leonardo Santos, à frente do projeto há seis anos.

Por ser um time novo, o Canaã ainda não tem uma base firme de torcedores. Aí que entra a Igreja Universal e a força de 9 milhões de adeptos pelo mundo. Durante a participação na Copa BH Tributarium em Minas Gerais, em julho, os jogadores do time sub-17 tiveram grande torcida de membros da FJU (Força Jovem Universal), grupo social da IURD em Belo Horizonte. Nenhum outro time teve apoio tão forte.

“Eu vejo que a torcida considera mais a parte social que o projeto exerce do que em si o futebol. Isso acaba trazendo pessoas, porque elas torcem pela instituição, querem que cresça pelo bem que fazemos na região. As pessoas torcem para a gente e para mim isso é o mais legal de tudo: ver a torcida aparecendo do nada por ser apoiadora do projeto”, diz o diretor Leonardo Santos.

Imagem: Divulgação

Parceria com empresário de Pedrinho

Responsável pela carreira do meia Pedrinho, que está entre os principais destaques do Corinthians na temporada, o baiano Will Dantas é o empresário responsável por criar oportunidades de mercado para os meninos formados pelo Canaã.

“Eu adorei o projeto, vi que tem futuro. Agora quem se destacar lá eu mesmo coloco nos clubes”, diz o agente, que vê a influência da Igreja Universal como positiva na vida dos jovens jogadores.

“Já tive problemas com garotos que quando estão no clube com contrato mudam radicalmente a maneira de ser, perdem a humildade, não respeitam mais. Os garotos da Igreja têm convivência com bispo, com as pessoas mais velhas, e o respeito é maior”, conta Will Dantas, que já encaixou um menino ex-Canaã chamado Rogério Feijão no sub-17 do Palmeiras.

O Canaã ainda não realizou a venda de nenhum jogador, somente empréstimos com valor de compra fixado. Em dezembro é possível que os primeiros resultados surjam. A ideia, a princípio, é reinvestir o valor no projeto social.

Seis emprestados ao Corinthians

Guilherme, Alanderson, Weslei, Iago, Ãngelo Josaphat e Paulo Henrique, ex-Canaã, da base do Corinthians

Imagem: Montagem sobre Reprodução/Instagram

Seis jogadores que têm os direitos econômicos detidos pelo Canaã foram emprestados até dezembro ao Corinthians, sendo dois no sub-17 (Guilherme e Alanderson) e outros quatro no sub-20 (Weslei, Iago, Ângelo Josaphat e Paulo Henrique). Todos têm opção de compra após o empréstimo, em contrato por três temporadas. São parte das primeiras iniciativas comerciais do novo time baiano.

O projeto foi montado em 2018, mas a falta de uma estrutura profissional atrapalhou no começo. Basicamente, empresários buscavam e tiravam jogadores com facilidade da equipe. A promessa é de que não será mais assim.

Hoje, o Canaã conta com time profissional na segunda divisão da Bahia, sub-20 (atual vice-campeão estadual), sub-17 e sub-15, além de categorias menores puxando mais para o lado da recreação. Participou de um torneio sub-17 em Minas Gerais neste ano e deverá estar na Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2020.

Imagem: Divulgação

Edir Macedo, Marcelo Crivella e o projeto em Irecê

A história contada sobre a criação do projeto Nova Canaã (que gerou o time de futebol) é de filme. A cidade de Irecê, a cerca de 500 km de Salvador, na Bahia, foi retratada no programa “Repórter Record”, então apresentado por Goulart de Andrade na emissora. Histórias tocantes sobre seca, fome e miséria no sertão baiano estiveram na pauta.

Edir Macedo assistiu ao programa e na sequência entrou em contato com o bispo Marcelo Crivella, que era missionário da Igreja Universal na África há dez anos. A ideia era criar um projeto naquela região da Bahia. Crivella lançou um CD chamado “O Mensageiro da Solidariedade”, que vendeu mais de 1 milhão de cópias e financiou a compra de uma fazenda e o cultivo da terra para que as famílias se organizassem em uma comunidade agrícola autossustentável.

Marcelo Crivella tem mandato na prefeitura do Rio de Janeiro até o fim do ano que vem

Imagem: Yasuyoshi Chiba/AFP

O projeto foi fundado em 2000 e ao longo do tempo foi ampliando sua atuação. Hoje há escola e atendimento a milhares de famílias no local. O incentivo ao esporte de alto rendimento vem daí. Marcelo Crivella hoje é prefeito do Rio de Janeiro.

No mesmo ano do projeto em Irecê, a igreja de Edir Macedo criou um time de futebol chamado Universal Futebol Clube, sediado no bairro de Curicica e que jogou uma temporada na segunda divisão do Campeonato Carioca. A ideia era que o time fosse uma nova forma de evangelização e atração de fiéis, principalmente jovens. Ingressos para jogos eram distribuídos em cultos e o público foi bom. O time é que naufragou, passou longe do acesso e foi logo desfeito. É o que ninguém deseja que se repita.

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