TORCIDA

O clube de bairro que se fez do tamanho do mundo: 25 anos das glórias do Vélez de Bianchi

O clube de bairro que se fez do tamanho do mundo: 25 anos das glórias do Vélez de Bianchi
A camisa branca com o “V” azulado no peito representa bastante a quem acompanhou o futebol durante a década de 1990. O Vélez Sarsfield, afinal, transformou-se num dos clubes mais emblemáticos do período dentro da América do Sul. De equipe tradicional na Argentina, mas de parcos troféus e com seu significado praticamente limitado ao bairro…

A camisa branca com o “V” azulado no peito representa bastante a quem acompanhou o futebol durante a década de 1990. O Vélez Sarsfield, afinal, transformou-se num dos clubes mais emblemáticos do período dentro da América do Sul. De equipe tradicional na Argentina, mas de parcos troféus e com seu significado praticamente limitado ao bairro de Liniers, o Fortín ascendeu para conquistar a Libertadores e o Mundial Interclubes, além de enfileirar taças domésticas. Um esquadrão que também eternizou lendas, em especial Carlos Bianchi e José Luis Chilavert. “Ninguém nos tira o que dançamos. E dançamos com bastante prazer”, definiria Bianchi, nesta semana em que se completaram 25 anos do título mundial. E a festa permanece.

As contratações de Bianchi e Chilavert foram essenciais à ascensão do Vélez. Até o início da década de 1990, a dimensão do clube no Campeonato Argentino era limitada. Desde o início do profissionalismo em 1931, os velezanos se ausentaram da primeira divisão apenas por um breve período no início dos anos 1940. Contudo, só uma vez haviam conquistado o título nacional, em 1968, quando Bianchi era um jovem atacante compondo o elenco. A partir de então, chegaram a bater na trave com três vices, mas também oscilaram em campanhas modestas, sobretudo no declínio vivido durante a década de 1980.

A contratação de Chilavert é um marco para a virada do Vélez. Antigo ídolo do San Lorenzo, o goleiro chegou a ser cortejado pelo River Plate, mas se mudaria em 1988 para o Zaragoza. Foram três temporadas no Campeonato Espanhol, as duas primeiras como titular, mas sem registrar grandes campanhas. Assim, o Fortín realizou um grande negócio ao resgatar o arqueiro subaproveitado a partir de 1991. O paraguaio reforçava um elenco de outros nomes tarimbados, como Oscar Ruggeri e Ricardo Gareca, mas que paulatinamente lançava os pratas da casa formados pela prolífica base do clube. O sinal concreto da ascensão viria no primeiro semestre de 1992, com o vice no Clausura sob as ordens de Eduardo Manera.

Surgiam os primeiros sinais de que o Vélez poderia se firmar entre os candidatos ao título do Campeonato Argentino. Ainda assim, a afirmação dependeria mesmo do retorno de Carlos Bianchi. Vendido ao Stade de Reims em 1973, El Virrey se consagrou como um dos maiores artilheiros da história do Campeonato Francês. Voltaria ao José Amalfitani no início dos anos 1980, antes de pendurar as chuteiras no Stade de Reims. E foi por lá, conciliando as funções como jogador, que o veterano iniciou sua carreira como treinador. Passou quatro anos com o Reims, antes de uma rápida passagem pelo Nice. Já em dezembro de 1992, aos 43 anos, recebeu o convite para retornar a Liniers e assumir o Vélez.

Bianchi não poderia renegar seu clube de coração. A partir daquele momento, passaria a moldar a forte base que tinha em mãos. E como quem já conhecia muito bem as categorias de base do clube, o novo treinador abriu mão até mesmo de alguns de seus medalhões. Nomes como Gareca e Ruggeri deixaram o Fortín, assim como Alejandro Mancuso foi negociado com o Boca Juniors. El Virrey montaria o seu esquadrão confiando em diversos garotos formados no próprio Vélez, além de outras adições pontuais. Chilavert era o pilar do sistema. O capitão Roberto Trotta e o meio-campista José Basualdo, trazidos respectivamente de Estudiantes e Racing em 1992, seriam outras pedras angulares da equipe neste novo momento. Já o zagueiro Víctor Hugo Sotomayor chegou a atuar no Verona, antes de trocar o Zurich por Liniers.

A torcida da V Azulada sequer precisou esperar para celebrar o toque de Midas de seu novo treinador. O Vélez foi campeão argentino logo no primeiro semestre de Bianchi, rompendo um jejum de 25 anos. Com um sistema defensivo fortíssimo, que sofreu apenas sete gols em 19 partidas, o Fortín faturou o Clausura 1993. Sofreu apenas duas derrotas, em campanha na qual permaneceu na primeira colocação por 16 rodadas. Apesar da vantagem relativamente pequena de três pontos sobre o vice Independiente (em tempos de dois pontos por vitória), ainda era uma prova de força dos velezanos, que repercutiria de outras formas. No segundo semestre, o time também foi vice do Apertura 1993, a um ponto do campeão River Plate.

O primeiro ano de trabalho de Bianchi foi essencial para lapidar aquele Vélez e construir uma equipe muito organizada. O Fortín contava com um sistema defensivo firme, que se valia da fase espetacular de Chilavert sob as traves. No meio-campo, uma boa dose de combatividade e velocidade nas transições, em setor encabeçado por Basualdo e Christian Bassedas. Já na frente, o trunfo velezano era ver uma dupla de ataque que se combinava muito bem, entre a combatividade do atarracado Turco Asad e a qualidade técnica do driblador Turu Flores, ambos saídos da base. O jogo direto era crucial ao time, inclusive pelas boas reposições de Chilavert. Além do mais, o preparo físico privilegiado era outra virtude dos alviazuis.

Foi com essa ideia de jogo, sem tantos jogadores consagrados, mas com uma espinha dorsal bem definida, que Bianchi atingiu o sucesso com o Vélez. Apenas Chilavert e Basualdo eram nomes frequentes nas convocações de suas seleções. Enquanto isso, a base principal contava com sete jogadores formados nas canteras, alguns deles um pouco mais rodados em Liniers. El Virrey iniciou um projeto com claro intuito de fomentar a ascensão dos pratas da casa, pensando no médio prazo. Todavia, os resultados vieram bem antes do esperado, também pela mentalidade que o técnico conseguia incutir em seus comandados.

Bianchi motivava os seus jogadores, mas sem precisar recorrer a estereótipos dentro dos vestiários. O técnico é descrito pela maioria de seus pupilos como um tipo respeitoso e sincero, que assim também ganhava o respeito e conseguia tirar o máximo. Cada um sabia muito bem sua função dentro de campo e isso potencializava as escolhas táticas do treinador. O profissionalismo imperava. Até por essa sensibilidade de Bianchi, o Vélez se impulsionava como uma equipe muito solidária e que acreditava piamente em seu mentor. A entrega dentro de campo era vital, e El Virrey sabia manejar o espírito de luta de seus atletas.

“Eu queria deixar uma marca internacional no Vélez. Era uma equipe que dava, não pedia. Não eram fenômenos, mas inteligentes. E eu creio que com jogadores inteligentes você pode conquistar grandes coisas”, diria o comandante, em entrevista anos depois ao TyC Sports.

Olhando 25 anos depois, a Copa Libertadores parece se casar perfeitamente com o que simbolizava aquele Vélez Sarsfield. Mas não foi assim até realmente começar a campanha. Pelo contrário, o Fortín era um azarão. Até então, o clube de Liniers só havia participado uma vez da Taça. Foi em 1980, quando chegou a eliminar o River Plate, mas não resistiu ao Internacional no triangular semifinal. E o pior ao Vélez em 1994 não era nem a falta de tradição, mas sim o tamanho do desafio que encararia logo na primeira fase da Libertadores. Em tempos de chaves divididas por países, o Grupo 2 reunia justamente os representantes de Argentina e Brasil.

O Vélez era considerado a zebra na chave que reunia Boca Juniors, Cruzeiro e Palmeiras. Três times avançariam aos mata-matas, mas ainda assim a equipe de Carlos Bianchi acabava apontada pelos especialistas como a principal candidata a ficar para trás. Não foi o que aconteceu, e esse descrédito fortaleceu o próprio elenco, animado para reverter os prognósticos. O início da campanha na Libertadores serviu para formar o caráter do Fortín, que se embebeu com confiança ao desafiar os favoritos logo de cara.

Durante as primeiras partidas, o Vélez ainda demorou a vencer. Em seu primeiro jogo, recebeu o Boca Juniors no José Amalfitani e precisou se contentar com o empate por 1 a 1, graças a um gol de Turu Flores. Já na segunda rodada, outro 1 a 1 pareceu de bom tamanho na visita ao Cruzeiro no Mineirão. Ronaldo abriu o placar logo no primeiro minuto, até que Turco Asad buscasse o resultado num contragolpe. A sorte começou a se transformar para o Fortín a partir de seu terceiro compromisso, no duelo contra o Palmeiras em Liniers. Os velezanos tiveram uma atuação vigorosa e venceram por 1 a 0, gol de cabeça de Asad.

Se o Vélez surpreendia, quem decepcionava era o Boca Juniors, que tomou de 6 a 1 na visita ao Palmeiras e perdeu em casa para o Cruzeiro. Assim, na quarta rodada, o Fortín confirmou a classificação antecipada ao derrotar os xeneizes dentro da Bombonera. Com um gol de Asad e outro de Saldaña, o duelo seguia empatado aos minutos finais, quando os alviazuis precisavam se segurar com um a menos. Apesar disso, arrancaram o triunfo por 2 a 1, graças a um contragolpe concluído por Basualdo já aos 45. No reencontro com o Cruzeiro, o Vélez confirmou a primeira colocação do Grupo 2, com a vitória por 2 a 0 em Liniers – tentos de Trotta e Asad. Por fim, Bianchi se deu ao luxo de escalar apenas reservas na visita ao Palmeiras em São Paulo, na qual os alviverdes golearam por 4 a 1.

De candidato a saco de pancadas, o Vélez saía fortalecido como melhor time do grupo da morte. No entanto, precisaria provar seu potencial também nos mata-matas, encarando o Defensor nas oitavas de final. Não seria tão simples. Os argentinos saíram de Montevidéu com o empate por 1 a 1, gol de Héctor Almandoz, mas não conseguiram se impor dentro de Liniers, mesmo jogando melhor. Após o empate por 0 a 0, sem a regra do gol qualificado na época, dependeram da disputa por pênaltis para garantir a classificação. E contaram com um gigante chamado Chilavert. O goleiro pegou duas cobranças dos violetas, compensando o erro do atacante Esteban González. Garantiu a vitória por 4 a 3 e a classificação às quartas de final.

A Libertadores de 1994 precisou sofrer uma pausa antes de suas três últimas fases, por conta da Copa do Mundo. E, ao menos um pouco, o sucesso do Vélez respingou na seleção argentina que disputou o Mundial dos EUA. José Basualdo compôs o elenco de Alfio Basile, indo à sua segunda edição seguida do torneio. O representante velezano foi reserva ao longo da primeira fase, ganhando a titularidade justo no duelo contra a Romênia nas oitavas de final, que marcou a eliminação da Albiceleste.

O sucesso do Fortín, de qualquer maneira, estava acima das estrelas individuais. Esteban González deixaria o clube na pausa de meio de ano, apesar de sua importância no título de 1993. Por outro lado, Bianchi ganharia as adições de Flavio Zandoná e Fabián Fernández. E o foco se mantinha na Libertadores, ainda mais depois da campanha ruim no Clausura 1994. Deixando de lado o torneio nacional, os velezanos terminaram na antepenúltima posição.

Nas quartas de final da Libertadores, o Vélez teve sua classificação mais tranquila nos mata-matas. O Minervén não representava tantos temores e os argentinos passaram com certo sossego pelos venezuelanos. O empate sem gols fora de casa saiu até com gosto amargo ao time de Carlos Bianchi, que só provou sua superioridade no Estádio José Amalfitani, com os 2 a 0 no placar. Turu Flores abriu a contagem com sua costumeira categoria, antes que Omar Asad aproveitasse o rebote de um pênalti para fechar a conta.

Já na reta final, a certeza de pedreiras. Enquanto o Vélez encararia o Junior de Barranquilla, com um dos melhores times de sua história, do outro lado veria o embate entre o bicampeão São Paulo e o bicampeão Olimpia. A quem já tinha passado por tantas camisas pesadas na fase de grupos, porém, não havia motivos para tremer.

A primeira partida contra o Junior, no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez, já foi memorável. Os Tiburones contavam com cinco jogadores que compuseram a célebre seleção colombiana na Copa de 1994, entre eles Carlos Valderrama. No entanto, quem estava inspirado naquela noite era Iván Valenciano. Em um jogo cheio de chances de gol, o atacante abriu o placar com uma bomba no primeiro tempo e quase ampliou em cobrança de falta, que explodiu na trave. Turu Flores conseguiu buscar o empate para o Vélez no início da segunda etapa, em ótima jogada individual. Mas o triunfo seria mesmo dos anfitriões, que definiram o placar em 2 a 1 a partir de uma tabela de Valenciano. Outra vez o artilheiro soltou um míssil, sem que Chilavert conseguisse segurar. Os argentinos, que tiveram dois tentos anulados em Barranquilla, precisavam reverter a situação em Liniers.

Diante de sua torcida, o Vélez teve a iniciativa e partiu para cima do Junior. Um cruzamento perfeito de Roberto Pompei permitiu que Christian Bassedas invadisse a área com liberdade e abrisse o placar de cabeça logo cedo. O jogo aéreo era o caminho ao Fortín, que ampliou ainda nos primeiros 15 minutos. Turco Asad ajeitou de cabeça, para Turu Flores novamente deixar a sua marca.

Contudo, os arremates venenosos de Valenciano deram sobrevida aos colombianos também na etapa inicial. Uma cobrança de falta perfeita do atacante deixou Chilavert plantado, só vendo a bola entrar. Depois disso, o que aconteceu foi uma pressão incessante dos alviazuis, que criaram uma quantidade impressionante de oportunidades, mas não conseguiram superar o goleiro José María Pazo. Insuficiente, a vitória por 2 a 1 forçava outra vez as penalidades.

Aquela contenda em Liniers pode ser considerada uma das mais épicas da história da Libertadores. Ali, de uma vez por todas, ficou expresso o espírito de campeão do Vélez. A confusão tomou o gramado antes mesmo da primeira cobrança do Junior. Chilavert provocava os batedores e o técnico Julio Comesaña invadiu o campo para reclamar do paraguaio, que recebeu o cartão amarelo. Porém, nas quatro primeiras séries, os batedores de ambos os lados foram perfeitos. Todos converteram, incluindo Chila e Valderrama. O ápice da emoção ficaria contido para o final.

No quinto chute do Vélez, Turu Flores perdeu. Telegrafou o canto e Pazo, que havia ficado no quase em dois chutes anteriores, conseguiu defender desta vez. Ficava tudo nos pés de Héctor Méndez. Antes do chute, entretanto, mais problemas. Os jogadores se empelotaram em uma discussão no meio do campo, enquanto Chilavert aguardava em sua meta. A espera pelo colombiano durou mais de dois minutos. E, no penal que poderia classificar os Tiburones, o batedor se borrou. Chutou fraco, no canto, permitindo que Chila encaixasse a bola. Nas alternadas, Basualdo não titubeou e recolocou os argentinos em vantagem. Por fim, Ronald Valderrama (irmão do Pibe) mandou no pé da trave e confirmou a vitória do Fortín por 5 a 4. Uma grande invasão de campo comemorava os alviazuis na decisão.

Aquela vitória, além de tudo, escancarava a importância de Chilavert não só como o craque daquele Vélez, mas também como um “líder espiritual”. Naquela época, o paraguaio não se metia a cobrar faltas ou pênaltis durante as partidas, salvo raríssimas exceções. A diferença que ele fazia era mesmo sob as traves, numa fase excepcional. Em quase todo jogo, ele garantia o resultado com defesas fora de série e outras nas quais parecia tornar tudo mais fácil. E uma virtude que sempre pesou a Chila era a sua personalidade – por vezes intempestiva e desleal, é verdade, mas que engrandeceu o time de Bianchi. A segurança no que o camisa 1 poderia fazer era imensa, também porque ele intimidava os adversários com sua força mental. Isso ficou expresso na marca da cal contra o Junior.

Força mental, aliás, seria algo essencial no último compromisso do Vélez naquela Copa Libertadores. O Fortín encararia na finalíssima o São Paulo, que vinha de dois títulos consecutivos na competição. O time de Telê Santana entrara diretamente nos mata-matas, para eliminar Palmeiras, Unión Española e Olimpia. Apesar das dificuldades contra os paraguaios, com a classificação nos pênaltis, o favoritismo tricolor era claro. Algumas peças haviam mudado em relação aos dois anos anteriores e a equipe não exibia o mesmo futebol vistoso, mas nada que diminuísse o respeito pelo esquadrão de Zetti, Cafu, Müller e Palhinha, entre outros.

A ida aconteceu em Buenos Aires, no próprio Estádio José Amalfitani, que pulsava para receber o Vélez. Fogos de artifício, papéis picados e bandeirões tomaram as arquibancadas para empurrar os anfitriões. E o Fortín se impôs contra os bicampeões, com a vitória por 1 a 0. A equipe de Carlos Bianchi mandou no primeiro tempo. Contava com o vigor de seu meio-campo para amassar o São Paulo e criar os espaços. Bassedas, Pompei e Basualdo dominavam o setor, gerando as chances para Turu Flores e Turco Asad na frente. Enquanto isso, os tricolores pouco conseguiam fazer. Tiveram um tento de Müller bem anulado, mas as chances eram escassas. Os argentinos construíram o merecido resultado aos 35.

Após um cruzamento de Pompei pela esquerda, André Luiz se complicou na hora de afastar e permitiu que a bola sobrasse limpa para Turco Asad. Pelo lado direito da área, o atacante dominou e mandou o tiro rasante no contrapé de Zetti. Comemorou com sua tradicional dancinha. Durante o segundo tempo, o Vélez diminuiu o seu ritmo, mas o São Paulo também não conseguiu aproveitar. Nem mesmo a entrada de Juninho Paulista no segundo tempo ajudou os tricolores, que precisariam reagir no Morumbi.

Telê Santana soltava fogo pelas ventas. Em entrevista à Folha, o treinador classificou aquele como “o pior jogo em que comandou o São Paulo” e declarou que, exceção feita a Válber e Zetti, todos os outros titulares deveriam ter sido substituídos. “Foram tantas falhas que não dá para enumerar. O Vélez estava com medo, mas o São Paulo não soube aproveitar. Aconteceram erros de passe, má colocação e até desinteresse. Se pudesse, teria feito outras oito substituições. Na preleção, disse que o Vélez é um bom time, mas inferior a outros que já enfrentamos. Perder só de 1 a 0 foi um prêmio para a gente e eles desperdiçaram a chance de serem campeões em Buenos Aires”, analisou.

Bianchi, por sua vez, reconhecia que o Vélez poderia ter feito mais: “Tivemos mais três ou quatro ótimas chances, poderíamos ter marcado mais um gol. O São Paulo joga mais do que mostrou. Com certeza vai melhorar atuando em seu estádio. Mas nossa defesa teve um ótimo desempenho. É importantíssimo destacar que o São Paulo não conseguiu criar nenhuma oportunidade. E que ninguém pense que só o São Paulo vai atacar no Morumbi. Esperem para ver”.

O argentino, ainda assim, adotou uma postura mais conservadora na visita ao Morumbi. Sem Sotomayor no miolo de zaga, Bianchi preferiu escalar o Vélez num 5-3-2, protegendo mais a defesa com as entradas de Héctor Almandoz e Mauricio Pellegrino. Com isso, Pompei começaria no banco, dando espaço a um meio-campo composto pelo trio Marcelo Gómez, Basualdo e Bassedas. O empate já parecia um ótimo negócio ao Vélez. Já Telê Santana repetiria a escalação do São Paulo, apenas soltando o time do 3-5-2 para o 4-4-2, apostando na mobilidade de Válber como elemento surpresa.

O Morumbi viveria uma noite em transe naquele 31 de agosto de 1994. Mais de 92 mil torcedores lotaram as arquibancadas, crentes na virada do São Paulo. O clima festivo, em contrapartida, também mexeu com os brios do Vélez a caminho do estádio. Os jogadores queriam estragar a comemoração. Já nos vestiários, Bianchi aproveitou esse jogo psicológico ao trazer a entrevista de Telê, tratada como um menosprezo ao Fortín. Se o treinador são-paulino considerava os adversários como um clube sem tradição, os velezanos se prontificavam a responder em campo.

Não seria uma missão tão simples, é claro. A pressão da torcida do São Paulo era enorme, a ponto de o lateral Raúl Cardozo considerar aquele jogo mais difícil do que qualquer outro que disputou na Bombonera. Segundo “Pacha”, sequer era possível conversar com os companheiros a poucos metros. E, de fato, os tricolores exibiram outro futebol dentro de sua casa. As boas trocas de passes, tão características das campanhas anteriores, voltavam a sair. Ao Vélez, restava se defender avidamente, o que não evitou a derrota parcial no primeiro tempo, apesar de uma bomba de Bassedas que deu trabalho a Zetti. O gol brasileiro saiu aos 33. Após uma tabela entre Palhinha e Euller, o atacante foi derrubado dentro da área. Pênalti, no qual Müller superou Chilavert.

Era um jogo de abnegação ao Vélez, que precisava colocar toda a sua energia em campo. E o sonho dos argentinos ficou no limite durante a segunda etapa. Primeiro, por um toque no braço de Marcelo Gómez dentro da área que o árbitro não marcou. Depois, pela forma como a bola pipocava ao redor da meta, obrigando Chilavert a realizar duas grandes defesas. Por último, pela expulsão de Raúl Cardozo, que recebeu o vermelho aos 20 minutos. Bianchi se revoltou e também precisou se retirar de campo. Ficaram ambos na boca do túnel, trancados para o lado de dentro dos vestiários, torcendo através do rádio.

Com um a menos, o Fortín se entrincheirou para evitar o segundo tento são-paulino. Houve certa cera dos visitantes, que também não aliviavam nas entradas mais firmes. Entretanto, prevaleceu a entrega de um time que precisou correr dobrado para segurar o placar. Com a saída de Turu Flores para a entrada de Claudio Husaín, Turco Asad se multiplicava na frente para tentar prender um pouco mais a bola e diminuir a imposição dos paulistas. Apesar da superioridade, o Tricolor não criou chances tão claras assim e lamentou os desperdícios, assim como um impedimento mal marcado em lance no qual Palhinha saía na cara do gol. A vitória por 1 a 0 forçava os penais.

A cena mais lembrada daquele jogo aconteceu logo depois do apito final. Os jogadores do Vélez se abraçaram e comemoraram a ida aos pênaltis, em tempos nos quais não havia prorrogação. Era esse o tamanho da confiança em Chilavert na marca da cal, depois do heroísmo contra Defensor e Junior. O goleiro realmente faria a diferença. Enquanto Trotta converteu com enorme precisão a primeira batida do Fortín, Chila adivinhou o canto do chute de Palhinha e rebateu sem grandes dificuldades. Então, os argentinos se agigantaram no aflito Morumbi.

Um a um, os jogadores do Vélez convertiam suas cobranças. E não adiantou Zetti acertar o canto em quatro dos cinco tiros, tamanha a qualidade das batidas. Chilavert fez o segundo, antes de André Luiz descontar. Zandoná converteria na sequência, assim como Müller. Almandoz deixou os argentinos mais perto do título, antes de Euller fazer o seu. E a conquista seria confirmada no quinto penal do Fortín, assumido por Pompei a pedido de Bianchi. O meio-campista mandou no alto e a bola beliscou a trave, antes de tocar o chão e entrar. La V Azulada conquistava a América, diante de um Morumbi atônito. Os 3 mil visitantes abafavam quase 90 mil nas arquibancadas.

O Vélez seria recebido com uma festa ainda maior em Liniers, ao exibir a taça da Libertadores à sua gente. E a missão dos argentinos não havia se encerrado. Três meses depois, o time de Carlos Bianchi ganhava o direito de desafiar o Milan no Mundial Interclubes. Outra vez, com o favoritismo aos adversários. Treinados por Fabio Capello, os rossoneri tinham destruído o incensado Dream Team do Barcelona na final da Champions, com a goleada por 4 a 0 em Atenas. As estrelas pendiam ao seu lado, com Franco Baresi, Paolo Maldini, Marcel Desailly, Demetrio Albertini, Dejan Savicevic, Roberto Donadoni, Daniele Massaro e outras feras. Mas já estava claro como o Fortín, outra vez, poderia deixar uma camisa bem mais pesada pelo caminho.

Naquele intervalo, o Vélez voltaria a registrar uma boa campanha no Apertura do Campeonato Argentino. O clube terminaria em terceiro, apesar da distância ao campeão River Plate. Os interesses de Bianchi e seus comandados, de qualquer maneira, estavam no que aconteceria em Tóquio naquele 1° de dezembro de 1994. O Fortín mantinha a sua base intacta e a mesma fome de bola para encarar o Milan – outro adversário a cair no erro de menosprezar o “time de bairro” que teria pela frente no Estádio Nacional.

Bianchi alinhou a equipe praticamente intacta em relação à campanha na Libertadores. Chilavert impunha respeito no gol, protegido pela linha defensiva composta por Almandoz, Trotta, Sotomayor e Cardozo. No meio, Gómez ocupava a cabeça de área, acompanhado por Basualdo e Bassedas, enquanto Pompei vestia a camisa 10. Já na frente, a incansável dupla composta por Asad e Flores. El Turco, em especial, marcaria seu nome em definitivo como uma das maiores figuras do Vélez. O garoto recusado em vários clubes por seu tipo físico, inclusive pelo próprio Vélez na primeira tentativa de ingressar em Liniers, e que quase foi cortado da final por Bianchi, diante de seu excesso de peso, seria justamente o herói fatal na maior conquista da história do Fortín.

Os jogadores do Vélez tratavam o Mundial como um presente. Um plus, após a conquista da Libertadores. Viajaram dias antes para se aclimatar ao Japão e também para conhecer um pouco do país, mas sem perder o foco na decisão. Carlos Bianchi passou vídeos do Milan para os jogadores assistirem. Primeiro, da goleada por 4 a 0 sobre o Barcelona. Depois, de derrotas na Serie A. “Eles não vão fazer uma partida melhor que essa da final”, era o discurso do treinador, para tentar acalmar seus comandados. E o embate reunia uma admiração pela força dos rossoneri, mas também certo receio àquilo que poderia acontecer. Turco Asad admitiu que seus companheiros dormiram mal na noite anterior, enquanto a estratégia de Bianchi era segurar o resultado durante os primeiros minutos, quando o nervosismo bateria mais forte.

Na chegada ao Estádio Nacional, sentia-se a diferença. Enquanto os jogadores do Milan vestiam seus ternos bem alinhados, os membros do Vélez usavam seus agasalhos. Havia um certo ar de superioridade, de diferença entre europeus e sul-americanos. Chilavert ajudou a quebrar o gelo. Diante do sorriso de canto de boca do goleiro Sebastiano Rossi, o paraguaio desdenhou: “Do que você está rindo, se é o pior goleiro do mundo?”. No aquecimento, porém, surgiram outros motivos para apreensão, depois que o volante Marcelo Gómez sentiu lesão. El Negro não quis desistir e entrou em campo com infiltrações.

Segundo Pacha Cardozo, a adrenalina do Vélez começou a baixar durante a saída dos times ao gramado, quando os argentinos se davam conta do tamanho da ocasião. Ainda assim, os primeiros minutos da equipe foram mais tensos. O Fortín permaneceu contido. Conforme as palavras do próprio Pompei, os argentinos sentiam o peso de enfrentar jogadores que antes pareciam limitados à televisão, onde costumavam aparecer nos duelos contra o Napoli de Maradona. Apenas Sotomayor já havia encarado os rossoneri, em seus tempos de Verona. Depois de um início de primeiro tempo travado dos sul-americanos, em que a técnica milanista se sobressaía, os azarões começaram a se mostrar.

Um lance decisivo aconteceu depois dos 20 minutos, quando Asad disputou no ombro com Baresi e deixou a lenda no chão. A partir de então, as chances do Vélez seriam mais constantes, enquanto o Milan não conseguia impor o seu refinamento. E a vitória se desenhou a partir do segundo tempo. Aos cinco minutos, depois de um lançamento de Chilavert, Basualdo cruzou e Turu Flores foi puxado dentro da área por Costacurta. Pênalti, que terminou convertido por Trotta. O capitão mandou no meio do gol e a bola bateu nas pernas do goleiro Rossi, antes de entrar.

O jogo direto de Chilavert seguiria muito útil ao Vélez, que abafava a saída do Milan. E o segundo gol não demorou a acontecer, aos 12 minutos. Asad foi inteligentíssimo ao ler a jogada. Após uma bola mal recuada de Costacurta para Rossi, o atacante se antecipou ao goleiro e tomou a pelota. A corrida permitiu que Turco se livrasse do camisa 1 e, com uma noção excelente de posicionamento, fez o giro imediato para bater à meta aberta, mesmo com pouco ângulo. Gol de pura intuição do camisa 9, que encaminhava a conquista ao Fortín.

Apesar da boa vantagem, o Vélez tinha mais de meia hora para defender o seu resultado. O Milan partiu para cima, mas tinha dificuldades para romper a linha defensiva alviazul e não conseguia incomodar Chilavert. E a situação dos rossoneri se tornou pior aos 40, quando mais um erro de Costacurta levou o zagueiro a cometer falta sobre Asad. Último homem, o italiano recebeu o vermelho direto, deixando os europeus com um a menos. Fabio Capello preferiu recompor a zaga, tirando Savicevic para a entrada de Christian Panucci. E o receio do treinador em evitar uma goleada teve sentido. Nos minutos restantes, o Fortín poderia até anotar o terceiro. Ficou a vitória incontestável de um time que soube encarar a decisão e superou todas as desconfianças para conquistar o mundo.

O apito final rendeu o êxtase máximo do Vélez Sarsfield. Turco Asad ainda seria premiado como o melhor em campo naquela decisão. O carro oferecido pela Toyota ao atacante, todavia, terminou rifado. Antes de seguir ao Japão, Bianchi combinou com seus jogadores que o presente seria revendido e o valor arrecadado acabaria dividido entre todos os atletas – uma maneira de evitar vaidades durante o Mundial. O herói da final, no fim das contas, continuou com seu Fiat 147.

E a história mágica daquele Vélez não pararia por ali, por mais que o desejo do bicampeonato continental fosse interrompido pelo River Plate nas quartas de final da Libertadores de 1995 – curiosamente, nos pênaltis. A sala de troféus em Liniers ganhou ainda outras aquisições nos anos seguintes. Bianchi conquistou o Apertura em 1995 e o Clausura em 1996, antes de ser contratado pela Roma. Sob as ordens de Osvaldo Piazza, viria a Supercopa Libertadores no segundo semestre de 1996. Já o último ato daquele período histórico ocorreu no Clausura de 1998, com Marcelo Bielsa à frente da equipe. Chilavert, Sotomayor, Zadoná, Pellegrino, Cardozo, Bassedas, Husaín, Camps e Asad participaram de todas aquelas façanhas.

O Vélez ainda montaria outras equipes fortes nas últimas duas décadas. Conquistou mais cinco edições do Argentino e chegou a ser incluído entre os favoritos à Libertadores, sobretudo sob as ordens de Ricardo Gareca. No entanto, a equipe não conseguiu exibir a mesma consistência e o mesmo espírito de luta que se viu naquele 1994 fabuloso. Depois, Carlos Bianchi elevaria seu nome com os três títulos à frente do Boca Juniors e Chilavert confirmaria seu lugar especial na história, não apenas pelos feitos com a seleção paraguaia, mas também pela veia artilheira que se afloraria na metade final da década. Duas lendas que se afirmaram no Fortín e tiveram a fundamental companhia de outros tantos ídolos velezanos.

Pelo caráter daquele elenco e por todas as raízes fincadas em Liniers, uma aura especial segue pairando sobre o Vélez de 1994, mesmo 25 anos depois. No último final de semana, os torcedores no José Amalfitani receberam os antigos campeões e celebraram as bodas de prata dos títulos. Uma epopeia que permanecerá recontada por toda a história no Fortín. Como bem definiria Bianchi: “Vélez é um bairro. E um clube de bairro virar campeão do mundo, para muitos, era uma utopia. Menos para nós. A utopia se converteu em realidade”. Naquele 1994, Liniers foi do tamanho do mundo.

* Como sugestão de leitura, ficam também os textos do amigo Caio Brandão, no Futebol Portenho. Eis o relato sobre a Libertadores e sobre o Mundial.

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