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Preconceito no esporte | Armário dos gays no futebol continua fechado a 7 chaves

Preconceito no esporte | Armário dos gays no futebol continua fechado a 7 chaves
O que levaria alguém a torcer por uma pessoa e, ao mesmo tempo, atacá-la? Bem, no futebol, onde pouco se tem notícia de jogadores assumidamente gays, qualquer "suspeita" é muito temida por quem está no armário.Há cerca de duas semanas, um jogador da Premier League inglesa enviou ao tabloide "The Sun" uma carta em que…

O que levaria alguém a torcer por uma pessoa e, ao mesmo tempo, atacá-la? Bem, no futebol, onde pouco se tem notícia de jogadores assumidamente gays, qualquer “suspeita” é muito temida por quem está no armário.

Há cerca de duas semanas, um jogador da Premier League inglesa enviou ao tabloide “The Sun” uma carta em que afirma que, apesar de se entender como gay desde os 19 anos, não se sente seguro para compartilhar sua orientação sexual com o time ou dirigentes. Segundo o jogador, que não se identificou na carta, só seus familiares e amigos muito próximos sabem que ele é homossexual.

“Eu gostaria de não precisar viver dessa maneira, mas a verdade é que existe um preconceito enorme no futebol”, escreveu.

O jogador afirma que esconder a própria orientação sexual está afetando sua saúde mental: “Eu me sinto sem saída; sei que, se eu me assumir, as coisas só ficarão piores. Então, embora meu coração esteja sempre falando que eu tenho de fazê-lo, minha cabeça pondera: “Por que arriscar tudo?’ Eu tenho a sorte de ganhar um salário muito bom. Tenho um carro legal, um guarda-roupa cheio de peças de grife, e posso comprar tudo o que eu quero para minha família e os amigos.”

A carta foi enviada por intermédio da Justin Fashanu Foundation, uma entidade criada para combater a homofobia e o racismo no futebol. Justin Fashanu foi o primeiro jogador britânico negro cuja transação ultrapassou 1 milhão de libras, e é lembrado não só por ser o único a assumir a homossexualidade, mas também por ter posto fim à própria vida.

Justin assumiu-se gay em 1990, quando ainda jogava profissionalmente, em uma entrevista ao mesmo “The Sun”. “I’m gay”, era a manchete, acompanhada de uma foto do jogador. De acordo com o site da fundação, declarar-se abertamente homossexual “foi uma façanha que nunca mais se repetiu no futebol inglês”.

“Vinte anos depois de sua morte, percebemos com tristeza que o preconceito ainda existe no esporte, e mudar isso é algo que encaramos como um desafio”, declarou a fundação, que informou não poder atender o UOL antes do fechamento deste texto.

Gays assumidos? Só no futebol amador

A coluna conversou com jogadores amadores de times LGBT+ de futebol e acessou chefes de torcida e clubes do futebol profissional.

O psicólogo homossexual Douglas Braga, 38 anos, que chegou a jogar pelo Botafogo, afirma que sua orientação sexual representou uma parcela importante em sua decisão de deixar o futebol profissional. Ele conta que viveu entre campeonatos e concentrações desde os 12 anos, e que a dificuldade era ter de “assumir um personagem 24 horas por dia, não deixar que soubessem que era o único ali sem namorada e passar noites em claro sofrendo com a ideia de ter de aceitar [em si] algo que era diferente dos outros”.

“Não bastaria ser o melhor em campo, eu precisaria da compreensão da torcida para conquistar o carinho dela. Agora imagina perder tantos anos de perseverança e sonho, com uma única declaração: ‘Eu sou gay’. Parece injusto, né? Pois é assim que uma empresa pode deixar de patrocinar um atleta e de investir em um clube. É muita coisa em jogo, sem amparo algum”, diz Douglas, que hoje joga em um time amador chamado Beescats Soccer Boys, um dos cinco LGBT+ do Rio.

Ex-goleiro do Botafogo, o psicólogo Douglas Braga hoje joga no time LGBT+ Beescats Soccer Boys

Imagem: Foto: Divulgação

O nome do time demanda desmembramento para compreensão: “bee” significa abelha em inglês, uma forma “fofa” de pronunciar a primeira sílaba do vocábulo biba; que, por sua vez, seria a alternativa infantilizada para a denominação “bicha”. Juntando bees, no plural, com cats, de gatos, em inglês, chega-se à homofonia “biscates”— que dispensa tradução. No subtítulo, os termos soccer (futebol, em inglês) e boys (garotos) compõem uma sequência que soa como “só quer boys”.

“O viadinho que jogava bem”

O humor autorreferente não compromete a seriedade com que se encara o esporte. No fim do ano, cinco equipes cariocas devem se enfrentar em campo, no primeiro campeonato LGBT+ do Rio. Há três anos, um aplicativo de relacionamento gay promoveu em São Paulo o primeiro evento nacional, que foi o pontapé inicial para a formação de uma liga de times LGBT+, a Ligay.

Na ocasião, outro jogador do Beescats, Rubem Baldo, 29, disse à coluna que sempre gostou de futebol, mas parou de jogar aos 13 anos porque sofria bullying: “O ambiente era hostil. Eu era o viadinho que jogava bem”, lembra ele, hoje reconciliado com a atividade em equipe.

As equipes da Ligay acolhem jogadores de todas as orientações sexuais, mas, por enquanto, nenhum heterossexual se dispôs a participar dos torneios. Por outro lado, três das cinco equipes cariocas participam de uma liga de mais de 150 times amadores, que disputam um campeonato no clube Pau Ferro, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio.

“No futebol amador, é bem mais tranquilo. Não existe dinheiro envolvido, os jogadores não dependem de mídia nem de agradar a torcida organizada”, explica o jornalista Flávio Amaral, 29, coordenador de marketing do Karyocas, outro time LGBT+.

Quando a torcida vira uma manada homofóbica

Pela experiência do biólogo Ronaldo Nascimento, 34 anos, presidente do Karyocas, alguns torcedores heterossexuais de times profissionais tendem a ser mais homofóbicos quando em grupo: “O medo do julgamento dos outros, no contexto de uma arquibancada cheia, pode levar o torcedor que seria mais tolerante individualmente a silenciar em atos homofóbicos, ou mesmo incitá-los junto com a maioria”, diz.

O psiquiatra Daniel Mori, do ambulatório transdisciplinar de identidade de gênero do Hospital das Clínicas-USP, diz que, de fato, “há experimentos em psicologia que mostram que uma pessoa pode mudar sua opinião de acordo com a do grupo, apenas para manter essa sensação de pertencimento”.

“Nas torcidas, de certa forma os gritos de ‘viado’ e ‘bicha’ ficam anônimos.”

Procurado individualmente, o presidente da torcida Independente, do São Paulo, Henrique “Baby” Gomes de Lima, se recusou a falar sobre o assunto. “O quê? Ih, mano, tô fora disso, não quero falar não. Valeu ae”, e interrompeu a ligação.

Alex Gaspar, assessor da torcida Gaviões da Fiel, do Corinthians, diz que o preconceito não é uma particularidade das torcidas. “É do ser humano”, acha. Alex orienta a coluna a falar com a diretora da torcida, Naty. Mas ela não atende o telefone nem reponde mensagens.

Franzino e choroso

Der acordo com o psiquiatra Mori, “a maioria das pessoas, por ignorância e muito preconceito, define o homossexual segundo uma estética padronizada, que o associa a um homem franzino, ‘afeminado’, sensível, choroso e sem talento para esportes. Isso é o total oposto do que os torcedores esperam de um jogador de futebol, mesmo não havendo relação nenhuma entre orientação sexual e talentos esportivos.”

O remetente anônimo da carta ao jornal “The Sun” diz que necessitaria mais do que coragem para falar abertamente a respeito de sua homossexualidade: “Será preciso haver mudanças radicais no jogo, para que eu me sinta pronto para dar esse passo. A Associação Profissional de Jogadores de Futebol afirma que está apta para ajudar um jogador que queira falar abertamente de sua orientação sexual. Diz que oferecerá aconselhamento e apoio para quem quer que precise. Só que a questão não é essa. Se eu precisar de um conselheiro, posso marcar uma sessão sempre que quiser. O que aqueles que dirigem o jogo precisam fazer é educar fãs, jogadores, gerentes, agentes, proprietários de clubes — basicamente todos os envolvidos no esporte.”

Tudo indica que esse jogador precisará esperar algumas encarnações para sair do armário.

Veja a seguir a carta na íntegra:

Desde garoto, eu sempre quis ser um jogador de futebol. Não estava interessado em ir bem na escola. Em vez de fazer o dever de casa, eu gastava cada minuto vago com a bola. No fim, valeu a pena.

Até hoje eu preciso me beliscar quando corro e jogo a cada semana para dezenas de milhares de pessoas.

Porém, há algo que me mantém distante da maioria dos outros jogadores da Premier League.

Eu sou gay.

Até mesmo escrever isso nesta carta parece um grande passo para mim.

Apenas meus familiares e um seleto grupo de amigos têm conhecimento da minha sexualidade. Eu não me sinto pronto para dividir isso com o time ou os dirigentes.

É difícil. Eu passo a maior parte da minha vida com essas pessoas, e quando a gente sobe para o gramado, somos um time. Mas ainda assim, alguma coisa dentro de mim torna impossível me abrir com eles, dizer como eu me sinto. E acho que tão cedo eu serei capaz disso.

Sei que sou gay desde os 19 anos. Como é ter de viver assim? Pode ser um pesadelo todo dia. E isso está afetando cada vez mais a minha saúde mental.

Eu me sinto sem saída; meu medo é que me assumir só fará as coisas ficarem piores. Então, embora meu coração esteja sempre falando que eu tenho de fazê-lo, minha cabeça diz a mesma coisa: “Por que arriscar tudo?”

Eu tenho a sorte de ganhar um salário muito bom. Tenho um carro legal, um guarda-roupa cheio de peças de grife, e posso comprar tudo o que eu quero para minha família e os amigos.

Mas me faz falta um companheiro. Na minha idade, eu adoraria estar em um relacionamento.

Acontece que, por causa da minha exposição, eu preciso confiar muito em um parceiro para entrar um relacionamento longo. Então, no momento eu evito completamente relacionamentos. E acho difícil encontrar tão cedo alguém que eu acredite ser suficientemente confiável.

A verdade é que eu acho que o futebol ainda não está pronto para acolher um jogador que se assume gay.

Será preciso haver mudanças radicais no jogo, para que eu me sinta pronto para dar esse passo. A Associação Profissional de Jogadores de Futebol afirma que está apta a ajudar um jogador que queira falar abertamente de sua orientação sexual. Diz que oferecerá aconselhamento e apoio para quem quer que precise.

Só que a questão não é essa. Se eu precisar de um conselheiro, posso marcar uma sessão sempre que quiser. O que aqueles que dirigem o jogo precisam fazer é educar fãs, jogadores, gerentes, agentes, proprietários de clubes — basicamente todos os envolvidos no esporte.

Se eu estivesse a ponto de me assumir, gostaria de saber que seria apoiado por essas pessoas. Não sinto que serei.

Eu gostaria de não precisar viver a vida assim, mas a realidade é que ainda existe um preconceito enorme no futebol.

Inúmeras vezes eu ouvi comentários e xigamentos homofóbicos, dirigidos a ninguém em particular.

Estranhamente, isso não me incomoda durante os jogos. Eu costumo estar muito focado. É quando eu pego o avião de volta, ou vou para o centro de treinamento, que isso me atinge.

Por enquanto, meu plano é continuar jogando enquanto eu me sentir apto, e me assumir quando estiver aposentado.

Eu me senti ótimo no mês passado, quando Thomas Beattie levantou a mão e admitiu ser gay. Mas o fato de ele ter tido de esperar a aposentadoria diz muito sobre o medo que os jogadores gays sentem de se assumir enquanto ainda jogam.

Desde o ano passado, eu tenho tido apoio da Justin Fashanu Foundation para mitigar os efeitos ocasionados por esse conflito na minha saúde mental.

É difícil colocar em palavras o quanto a fundação tem me ajudado. Eles não só me forneceram apoio e fazem eu me sentir compreendido, como me deram confiança para que eu conseguisse estar mais aberto e ser mais honesto, especialmente comigo mesmo.

Sem esse apoio, eu realmente não saberia dizer como estaria agora. Eu acredito que posso chegar ao ponto de achar impossível continuar vivento uma mentira.

Se chegar a isso, meu plano é adiantar minha aposentadoria, e me assumir. Até posso estar jogando fora anos de uma carreira lucrativa, mas é o preço de manter a minha paz interior.

Eu não quero viver assim para sempre.

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