TORCIDA

PVC | Há um ano, Jorge Jesus se tornava técnico do Fla

PVC | Há um ano, Jorge Jesus se tornava técnico do Fla
A fotografia de Rodolfo Landim abraçado com Jorge Jesus surgiu na tela do meu celular por volta de meio-dia em Madri, 7h no Brasil. Faltavam oito horas para a decisão da Champions League. Jorge Jesus vestia um terno claro e uma camisa social preta, ao lado de Landim, sorridente com uma camiseta da Adidas. Havia…

A fotografia de Rodolfo Landim abraçado com Jorge Jesus surgiu na tela do meu celular por volta de meio-dia em Madri, 7h no Brasil. Faltavam oito horas para a decisão da Champions League.

Jorge Jesus vestia um terno claro e uma camisa social preta, ao lado de Landim, sorridente com uma camiseta da Adidas. Havia fumaça branca e o técnico português anunciado oficialmente, mas primeiro no meu blog. Faz um ano exato nesta segunda (1º).

Desde então, foram 51 partidas que provocaram um terremoto nos conceitos do futebol brasileiro. O primeiro a ser derrubado foi o do meio-de-campo. “Vocês montaram um plantel com vários primeiros volantes e nenhum segundo volante”, disse Jesus a Rodolfo Landim.

Ao escutar que Willian Arão era o segundo homem, Jorge Jesus devolveu que era o melhor primeiro volante do elenco. Mas não tinha o segundo, que virou Gerson. Dos 51 jogos sob o comando do treinador português, Arão disputou 45. Só o goleiro Diego Alves jogou o mesmo número e ninguém mais do que o cabeça de área, antes odiado pela torcida.

O primeiro volante ideal para Jorge Jesus precisa ser alto para ajudar nas bolas aéreas na defesa e no ataque. Também tem de saber sair jogando e dar opção de armação da jogada. Cuellar era, na visão do treinador, limitado em todos esses aspectos.

Como o colombiano era ídolo, vê-se que a visão distorcida não era apenas de Abel Braga, seu antecessor, mas do conceito do futebol brasileiro. A torcida amava Cuellar e não gostava de Arão.

Não foi só isso o que mudou. Há tempos, o Brasil não tinha duplas de ataque, sem um centroavante fixo. Nesse caso, Jesus só nos lembrou de que este foi o país das tabelinhas, de Pelé e Coutinho, Sócrates e Palhinha, Bebeto e Romário, Gabriel e Bruno Henrique.

Não é preciso ter um atacante solitário em Gabriel, para que Bruno Henrique seja um ponta. Os meias é que jogam abertos, como Everton Ribeiro e De Arrascaeta. Concentram-se perto da linha, com o segundo volante, o lateral e um avante.

Com três a quatro jogadores de um lado, ou se cria a jogada pela superioridade numérica, ou se vira o jogo com rapidez, para surpreender a defesa que se concentrava do setor congestionado.

Junte-se a isso a marcação por pressão, outro dos ensinamentos que Jorge Jesus trouxe do técnico que mais admirou: Johan Cruyff. Nos anos 1990, chegou a estagiar em Barcelona para ver de perto seu mestre. Também viajou ao Brasil, para assistir aos jogos de Palmeiras e São Paulo. O aparente interesse no time de Telê Santana contrasta com a pergunta que já fez publicamente depois de chegar ao Brasil: “Quem é Telê Santana?”.

Vê-se que Jesus ensina, mas também peca. Em sua primeira entrevista coletiva, observou que no Brasil diz-se elenco, e em Portugal, plantel. “De modo que vou ter de me adaptar a certos adjetivos.”


Ops… Substantivos.

Nenhum brasileiro reclamou, diferentemente dos italianos que implicaram com José Mourinho ao dizer que os rivais tinham “zero título” —o certo seria “zero titoli”—, ou quando nós mesmos brincávamos com o castelhano de Luxemburgo, no Real Madrid, ou com o inglês de Felipão, no Chelsea.

Jorge Jesus nos trouxe muito mais do que a lembrança do sotaque e dos erros de português de nossos avós. Há um ano, ele nos ajuda a redescobrir um país que ama e sabe jogar futebol.

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