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Rafinha e o irresistível poder do futebol grego

Rafinha e o irresistível poder do futebol grego
POR JORGE MURTINHO* Em 2014 eu escrevia o blog Questões do Futebol, da revista piauí, e me propus a fazer uma análise rápida e rasa das trinta e duas seleções que participariam da Copa do Mundo. Quando chegou a vez da Grécia, pensei: me estrepei.Conhecendo o futebol grego tanto quanto o idioma, não vi outra…

POR JORGE MURTINHO*

Em 2014 eu escrevia o blog Questões do Futebol, da revista piauí, e me propus a fazer uma análise rápida e rasa das trinta e duas seleções que participariam da Copa do Mundo. Quando chegou a vez da Grécia, pensei: me estrepei.

Conhecendo o futebol grego tanto quanto o idioma, não vi outra saída a não ser tratar o embrulho com leveza e algum humor. (Diferentemente do que eu viria a fazer com a seleção alemã: publicado em 11 de junho, um dia antes do jogo de abertura da Copa em Itaquera, o post trazia o premonitório título de “A grande ameaça”. Reproduzo aqui as últimas linhas: “Existe uma chance bastante boa de termos Brasil e Alemanha na semifinal. Um dos chavões do futebol diz que quem quer ser campeão do mundo não pode escolher adversário. O discurso é bonito, mas ajudaria um bocado se os alemães caíssem antes.” Desculpem o momento biscoito.)

A seleção grega permitia brincar, e fiz isso logo na chamada: “Existe arroz à grega, iogurte grego, churrasco grego. Mas futebol grego não existe.” Um dos leitores chiou, comentando que meu texto ignorava a conquista da Eurocopa, ocorrida dez anos antes em Lisboa. Sim, em 2004 os gregos venceram a competição europeia, adotando a indigesta mistura de disciplinada retranca com uma enxurrada de bolas aéreas na área adversária. Na partida decisiva do torneio, vitória de um a zero sobre os donos da casa, gol de cabeça de Charisteas. Um toucinho do céu ao primeiro que acertar o nome de quem treinava a seleção de Portugal.

Embora a crítica do leitor se justificasse, o eurotítulo não poderia virar referência. Seria mais ou menos como começar o Brasileiro de 2020 preocupado com a performance do Coritiba, campeão em 1985. Além do que, em 2004 o futebol decidiu botar as manguinhas de fora. O Porto levantou a Champions League, o Once Caldas conquistou a Libertadores, o Zaragoza levou a Copa del Rey, o Werder Bremen beliscou o alemão, o São Caetano ficou com o paulista e o Santo André, bem, deixemos o Santo André para outra ocasião.

Pois agora o futebol grego se assanha novamente e põe em campo sua improvável pujança, provocando a terceira baixa entre os campeões rubro-negros de 2019. Raçudo, folgado, dono de profunda consciência tática e boa técnica – não foram poucos os lances de perigo criados pelo Flamengo nos estilosos cruzamentos em que ele parecia dar uma tacada seca na bola –, Rafinha parte para o Olympiacos e nos obriga a refletir.

Minha mudança do Rio para São Paulo aconteceu em 2005, ano em que a rapaziada do Morumbi passou o rodo, ganhando o paulista, a Libertadores e o Mundial. Titular absoluto de uma zaga que abusava da segurança, Lugano se transformou em um dos ídolos da história do clube. Entretanto, em 2006 ele jogou a idolatria pro alto e se transferiu para o Fenerbahçe. Apesar de não ter nada com isso, eu não me conformava. Se fosse o Manchester United, o Real Madrid, o Bayern de Munique ou outro poderoso de uma liga idem, ok, nosso castigado dinheirinho não tinha como encarar essa ricalhada. Mas perder um ídolo incontestável – experimente falar mal do Lugano na frente de um torcedor do São Paulo, para ver o tamanho do barulho que você compra – para um time da Turquia? Por mais que se ressaltasse a paixão turca pela bola ou a formidável rivalidade com o Galatasaray, havia algo fora da ordem. Detalhe: na ocasião o euro valia cerca de R$ 2,70, menos da metade do que vale hoje. O São Paulo abrir mão de Lugano, por não conseguir cobrir a proposta de uma liga que deveria ser a sétima ou oitava do cenário europeu, era uma prova assustadora da indigência arrecadatória do futebol brasileiro.

Corta. Passagem de tempo, mudança de personagens, outra locação. De 2006 para 2020, de Lugano para Rafinha, do futebol turco para o bem menos qualificado futebol grego.

A maior contribuição da Grécia ao universo boleiro deu-se em 1982, quando foi lançado Monty Python Ao Vivo no Hollywood Bowl e um dos quadros apresentava a seleção dos filósofos gregos derrotando a dos filósofos alemães. Com algo em torno de 11 milhões de habitantes, a Grécia tem hoje uma população três vezes menor do que a torcida do Flamengo. De acordo com o site chancedegol.com.br, no final de 2018 o Olympiacos contabilizava 3 milhões de torcedores; o Flamengo, 34 milhões. Já o site transfermarkt.com.br informa que o Olympiacos mantém 42 jogadores em seu elenco, dos quais somente um com valor de mercado superior a 10 milhões de euros. Com 28 jogadores no elenco profissional, o Flamengo tem quatro deles avaliados acima disso.

Ao jogar esses números no liquidificador, o resultado que se obtém é uma pergunta: como é que o Olympiacos oferece a Rafinha bem mais do que o dobro de seu salário rubro-negro? No Flamengo, os ganhos do lateral giravam em torno de 750 mil reais por mês, equivalentes a 125 mil euros. No Olympiacos, parece que o salário mensal ultrapassará 300 mil euros. Repito o argumento do caso Lugano: se fosse o Manchester United, o Real Madrid, o Bayern de Munique, mas o Olympiacos? Futebol grego? Mesmo a incalculável fortuna do dono do clube, o influente e polêmico Evangelos Marinakis, não parece suficiente para explicar. Milionários não costumam ser perdulários.

Se não há como o futebol brasileiro possa agir para neutralizar o desequilíbrio monetário, é para ontem seu amadurecimento e sua reinvenção. Exigência quanto a gestões responsáveis nos clubes – que diabo é isso que o Atlético Mineiro anda fazendo? –, modernização do sistema federativo, calendário bem elaborado, estaduais repensados, gramados decentes, treinadores atualizados, arbitragens profissionais e qualificadas, menos interferência e lentidão do VAR (basta observar como os ingleses lidam com a engenhoca). Tudo isso desaguaria em competições cada vez mais atraentes, capazes de amplificar o interesse de torcedores, patrocinadores, emissoras de tevê e mercado de streaming, gerar o bom e indispensável dindim para a manutenção dos craques, proporcionar um número crescente de jogos memoráveis. A tão ambicionada máquina que se autoalimentaria e jamais pararia de girar.

O contrário de tudo isso é a consolidação do futebol brasileiro em um plano secundário, o que faz com que a gente se borre de medo que venha cá o Benfica – clube de outro país que tem menos de 11 milhões de habitantes e cuja liga também briga para ser a sétima ou oitava da Europa – e faça a limpa. Lembremos: ano passado o Benfica vendeu João Félix por 126 milhões de euros. Quantia suficiente para aterrissar na Gávea com uma oferta hostil no valor integral das multas rescisórias e levar três ou quatro dos nossos de uma só vez. Vai ser assim para sempre?

O Flamengo está se aprumando, já conseguiu o que, confesso, eu havia perdido as esperanças de ver, mas a saída de um dos titulares do time devido a uma proposta do futebol grego mostra que, para além do complexo de vira-latas, é preciso encarar a realidade, entender que futebol não se joga sozinho e admitir que ainda há muita estrada a percorrer.

Boa sorte, Rafinha. Bem-vindo, Isla. E Domènec, por favor, tenha juízo.

*Jorge Murtinho nasceu no Rio de Janeiro, numa família abarrotada de tricolores. Dos quatro aos 26 anos, foi vizinho do estádio de General Severiano, onde acompanhava os treinos do timaço que o Botafogo tinha no final da década de 60. Virou rubro-negro por uma dessas coisas que só o Flamengo é capaz de fazer. Redator de propaganda por mais de quatro décadas, escreveu o blog “Questões do Futebol”, da revista piauí, de maio de 2013 até o final de 2014. Faz parte do RP&A desde o começo da bagaça, em janeiro de 2015. No início de 2020 lançou, em parceria com a Nivinha, o livro “Festa na Favela”, sobre a magnífica temporada do futebol do Flamengo no ano anterior.

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