TORCIDA

Renata Mendonça | Arquibancada de futebol ainda exclui a mulher

Renata Mendonça | Arquibancada de futebol ainda exclui a mulher
Lembro até hoje do dia em que fui pela primeira vez sozinha ao estádio. Eu sempre gostei de ir a jogos de futebol --descobri isso depois que insisti para o meu pai me levar a um deles ainda na infância. Só que houve um tempo em que eu não tinha companhia para ir. Naquele dia,…

Lembro até hoje do dia em que fui pela primeira vez sozinha ao estádio. Eu sempre gostei de ir a jogos de futebol –descobri isso depois que insisti para o meu pai me levar a um deles ainda na infância. Só que houve um tempo em que eu não tinha companhia para ir.

Naquele dia, eu queria muito ir ao jogo, mas não tinha ninguém para ir comigo. Aí veio a ideia ousada: e se eu fosse sozinha? Para um homem, isso não seria uma preocupação –aliás, não seria nem uma questão. Mas para nós, mulheres, infelizmente precisa ser.

Não era um clássico, não era uma partida com tanto apelo, com tanta torcida. Mas era às 21h de uma quarta-feira. Eu ainda teria que voltar para casa sozinha depois das 23h. A cabeça fervilhava: será que eu vou? E se acontecer alguma coisa? Mas eu quero ir, não é justo me privar de uma coisa que eu quero fazer por medo do que pode acontecer. Não é, mas para as mulheres isso é muito mais comum do que a gente gostaria.

Vão dizer que é mimimi. Então vamos aos dados no Brasil: 42% das mulheres já sofreram assédio sexual (Datafolha, 2018); mais de 500 mulheres são agredidas a cada hora (Datafolha, 2017); são 180 estupros registrados por dia no país (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2019).

No contexto do futebol, infelizmente não há um estudo oficial que retrate a realidade das mulheres, mas em 2018 o departamento de comunicação do São Paulo realizou uma pesquisa informal que teve a participação de 278 torcedoras (de clubes variados) e constatou: 59% delas já haviam sofrido algum tipo de assédio no estádio. Mais: 73% das entrevistadas presenciaram outras mulheres em alguma situação constrangedora (ouvindo piadas e ofensas machistas, ou até sofrendo abuso e violência).

Qualquer uma que já tenha frequentado a arquibancada sabe que ela consegue ser, ao mesmo tempo, tão apaixonante quanto hostil para nós, mulheres. Talvez tudo isso explique por que no ano passado só 14% do público dos jogos do Campeonato Paulista era feminino, segundo pesquisa do Datafolha.

Um outro estudo encomendado pela Federação Paulista de Futebol (FPF) com a Ibope/Repucom mostrou que um dos principais motivos para essa “rejeição” feminina à arquibancada está na ideia de que “estádio não é lugar pra mulher”.

Isso ajuda a explicar também toda a minha apreensão para decidir ir àquele jogo sozinha. Aos 21 anos, finalmente me permiti essa experiência. Abaixei a cabeça quando ouvi o primeiro “gostosa” na rua, andei mais rápido quando ouvi um “delícia” mais perto e procurei chegar logo no portão para fugir dos olhares que me incomodavam.

Mas nada paga o sentimento que a arquibancada transmite. A vibração daquele cimento, a felicidade instantânea que só um gol pode proporcionar, as amizades com desconhecidos estabelecidas em 90 minutos, os palavrões trocados e, se tiver sorte (como tive naquele dia), o sorriso que só uma vitória pode proporcionar.

A arquibancada é uma metáfora perfeita da vida: ela o faz acreditar sempre, na vitória ou na derrota, traz alegrias e decepções e ensina a seguir em frente, porque sempre há um próximo jogo por vir.


Mas hoje a arquibancada ainda exclui. Porque nós, mulheres, ainda não somos acolhidas nela. A campanha #ElasNoEstádio, da FPF, tenta mudar isso colocando delegadas para acolher denúncias de assédio e abrindo canal de comunicação com as torcedoras. É um caminho. O que não dá mais é para aceitar, em 2020, a ideia ultrapassada de que “estádio não é lugar de mulher”.

Fonte

Redação SP

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