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Rolou e não foi legal: o que aconteceria se a gente não conseguisse dormir?

Rolou e não foi legal: o que aconteceria se a gente não conseguisse dormir?
O que aconteceria se a gente não conseguisse dormir? - Pergunta de Bruna Silva, de São Paulo (SP) - quer enviar uma pergunta também? Clique aqui.Aposto que você está com essa dúvida por causa do filme "Awake", da Netflix. Acertei? Não vou dar spoiler aqui, até porque ainda não assisti —quem sabe em algum momento…

O que aconteceria se a gente não conseguisse dormir? Pergunta de Bruna Silva, de São Paulo (SP) – quer enviar uma pergunta também? Clique aqui.

Aposto que você está com essa dúvida por causa do filme “Awake”, da Netflix. Acertei? Não vou dar spoiler aqui, até porque ainda não assisti —quem sabe em algum momento insone porvir… Só o que tenho a dizer aos desavisados como eu é que a trama se passa numa realidade em que um fenômeno inexplicável desliga todos os eletrônicos da Terra e desabilita a capacidade das pessoas de dormir.

Na vida real, existe um recorde mundial documentado de privação de sono —e foi voluntária. Entre o finzinho de 1963 e o início de 1964, o então estudante de ensino médio americano Randy Gardner, 17 anos, ficou 11 dias seguidos —e mais 25 minutos— sem pregar os olhos. A maratona era um experimento para a feira de ciências escolar de San Diego, na Califórnia (EUA).

Naquele tempo, ainda não havia as informações que temos hoje sobre o que ocorre com 24 horas sem dormir (0,1% de álcool no sangue e consequentes prejuízos para memória, coordenação motora, concentração, tomadas de decisão e consciência do próprio estado de debilidade), 36 horas (aumento de marcadores inflamatórios no sangue, alterações hormonais/emocionais), 48 horas (apagões e desorientação) e 72 horas (alucinações).

A intenção inicial de Gardner e do amigo Bruce McAllister era bater o recorde de um DJ de Honolulu, no Havaí, que ficara 260 horas —pouco menos do que 11 dias— ligadão. Decidiram no cara ou coroa quem ficaria acordado e quem monitoraria os efeitos da insônia forçada no colega. Gardner perdeu e McAllister seria o monitor.

Como planejamento não era o forte da dupla, só no terceiro dia perceberam que precisariam de ajuda, já que McAllister se pegou fazendo as anotações numa parede em vez de no papel, tamanha a confusão mental em que estava.

Convocaram, então, outro amigo, Joe Marciano. Que nem precisou trabalhar muito porque logo se juntou ao “grupo de trabalho” o pesquisador William Dement —com trocadilho e tudo—, da Universidade Stanford. Dement ficou sabendo da experiência juvenil lendo um jornal de San Diego e se ofereceu para conduzir o experimento.

Os pais de Gardner ainda convidaram o tenente John J. Ross, do departamento de pesquisas neurológicas da marinha americana para completar o time que se revezava no monitoramento do filho.

Ao longo da jornada, Gardner oscilava entre momentos de lucidez e excelente desempenho atlético e episódios de irritação e alucinação, como quando confundiu uma placa de trânsito com uma pessoa, quando acreditava ser um jogador profissional de futebol americano ou quando estava fazendo uma contagem matemática em voz alta e interrompeu abruptamente por não se lembrar do que estava fazendo.

Poucos minutos após bater o recorde, Gardner dormiu pelas 14 horas seguintes e acordou novinho em folha. Só que não na sua cama, mas num hospital da Marinha, onde teve sua atividade neurológica monitorada.

Houve um aumento percentual acentuado do seu sono REM —fase em que o cérebro está mais ativo no sono—, mas que diminuiu até níveis normais em poucos dias. E só.

Os pesquisadores também descobriram que para seguir operando mesmo num período prolongado sem repouso, o cérebro de Gardner desligava e ligava diferentes partes em revezamento —mais ou menos como fizeram os amigos e os pesquisadores enquanto observavam o sono dele.

O episódio despertou a América: o experimento escolar que virou recorde mundial foi o terceiro assunto mais publicado em jornais à época, atrás apenas do assassinato de John Kennedy e do tour dos Beatles no país.

Tamanha popularidade também eternizou o feito de Gardner: para evitar riscos à saúde de futuros desafiantes ao recorde, o Guinness Book nunca mais aceitou inscrições para novas marcas.

Em entrevistas recentes, Gardner declarou ter sofrido com insônia severa ao completar 60 anos, no fim dos anos 2010 —mas nada que possa ser associado diretamente ao seu antigo recorde. Mas essa fase insone tardia já passou e, agora, ele dorme no máximo seis horas por noite —nada incomum para setentões como ele.

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