TORCIDA

Urge acabar com as saúvas

Urge acabar com as saúvas
POR JORGE MURTINHO Faz tempo. O google informa que a passagem do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire pelo Brasil aconteceu entre 1816 e 1822. Apesar do deslumbramento com a fauna e a flora, Saint-Hilaire se assustou com o poder de destruição exercido pelas saúvas inclusive sobre árvores frondosas, e soltou a frase que virou meme:…

POR JORGE MURTINHO

Faz tempo. O google informa que a passagem do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire pelo Brasil aconteceu entre 1816 e 1822. Apesar do deslumbramento com a fauna e a flora, Saint-Hilaire se assustou com o poder de destruição exercido pelas saúvas inclusive sobre árvores frondosas, e soltou a frase que virou meme: “Ou o Brasil acaba com as saúvas, ou as saúvas acabam com o Brasil.” Dois séculos se passaram e, até onde sei, as formigas cortadeiras permanecem firmes. O país é que não anda lá se sentindo muito bem.

Pois o futebol também tem convivido com três saúvas devastadoras. A primeira e maior delas é, decerto, a pandemia, que impede a ida das pessoas aos estádios e transformou o maior esporte que o ser humano foi capaz de inventar em algo sem sal, sem gosto e sem magia. Não há como ser diferente do que tem sido – caso clássico de só tem tu, vai tu mesmo –, mas as partidas jamais foram tão chochas e sem vibração. Pouco antes do futebol retornar, Romildo Bolzan Júnior, presidente do Grêmio, afirmou: “Será triste e desestimulante, porque a torcida é parte importante do jogo. Sem ela, os jogos serão treinos que irão valer alguma coisa.” Quem viu a vitória do Flamengo sobre o Bahia há de concordar: teve toda a pinta de treino valendo três pontinhos. 

A segunda saúva é uma das mais estúpidas mudanças de regra operadas pela Fifa, e que praticamente elimina a diferença entre bola na mão e mão na bola. Para conversar sobre assunto de tal grandeza, nada melhor do que recorrer ao mestre dos mestres: no imprescindível O Negro no Futebol Brasileiro, Mario Filho conta que no final da década de quarenta, convencida de que diferenças nos critérios de arbitragem haviam prejudicado nossa seleção na Copa de 1938, a CBD (mãe da CBF) convidou o juiz inglês George Reader para apitar os amistosos que o Southampton faria no Brasil. Em um dos primeiros lances da partida entre o clube britânico e o Fluminense, a bola fugiu ao controle do atacante tricolor Orlando Pingo de Ouro e resvalou em sua mão. Orlando parou, acusando a infração, e se surpreendeu com a atitude de Mr. Reader, que viu e nada marcou. Mais tarde, o juiz esclareceu: como Orlando não tivera a intenção de colocar a mão na bola, a jogada deveria seguir. Estava explicado o que até então não sabíamos: uma coisa era mão na bola, outra coisa era bola na mão. 

Ainda hoje, de vez em quando aparece quem condene a antiga regra com o argumento de que é impossível, ao juiz, determinar a intenção de um jogador. Uma dica: sempre que você ouvir isso, tenha a certeza de que o interlocutor nunca foi capaz de fazer três embaixadinhas no mais mixuruca dos campinhos de pelada. Sabe nada. 

Para justificar a mudança na regra, surgiu outra bizarrice a que deram o nome de “movimento antinatural”. Tá legal. Aí o atacante carrega a bola junto à lateral da área, prepara o cruzamento e, na corrida, o zagueiro é obrigado a cruzar os braços atrás das costas, como se dançasse o xaxado. Natural à beça, não?

A antiga regra era perfeita e sua justa aplicação dependia unicamente da qualidade dos juízes. E o que temos agora? O segundo gol da seleção francesa contra os croatas, na decisão da Copa do Mundo de 2018 (o placar estava um a um), veio com um pênalti em lance de bola na mão. Na final da Champions League, temporada 2018/2019, o primeiro gol do Liverpool aconteceu num pênalti em que o atacante Mané cruzou a bola diretamente no sovaco de Sissoko, meio-campista do Tottenham. Se puder, reveja a jogada: caso Sissoko estivesse com o braço direito aberto (movimento antinatural?), não haveria o toque na mão.

Embora a nova regra também sirva para anular gols, como no último Flamengo x Botafogo, intuo que a origem da mudança esteja no discutível desejo de ampliar, a qualquer preço, o número de gols durante as partidas. Volta e meia a Fifa tem essa recaída. Em meados da década de noventa, e ainda sob a presidência de João Havelange, a entidade discutia o aumento do espaço entre as balizas. Pensava-se em deixar o travessão 23 centímetros mais alto, enquanto a distância da trave direita para a esquerda cresceria perto de meio metro. Chegou-se a autorizar o experimento, em torneios das divisões inferiores do futebol europeu. Não se teve mais notícia da aberração. 

Todavia, é injusto dizer que as mudanças promovidas pela Comissão de Arbitragem da Fifa são invariavelmente para pior. A alteração que permitiu a um jogador de linha receber o tiro de meta dentro da sua área pode contribuir para deixar o jogo mais bem jogado. O São Paulo, dirigido por Fernando Diniz, tem utilizado de forma constante o novo recurso. Quando o goleiro Tiago Volpi vai bater um tiro de meta, o meio-campista Tchê Tchê encosta para recolher o passe na marca do pênalti, e dali sai tocando. Claro que não é para qualquer um: o Bahia tentou fazer igual contra o Flamengo, só que, grosso toda vida, o zagueiro Lucas Fonseca entregou a mariola no primeiro gol de Pedro. Passarinho que come pedra, o resto da frase você conhece.

Mais uma: com a interrupção do futebol e a comemoração pelos cinquenta anos do título mundial de 1970, a tevê passou a mostrar antigas partidas da seleção brasileira. Nada mais antijogo do que o zagueiro dominar a bola perto da área, ser apertado pelo atacante e recuar nas mãos do goleiro. A mudança na regra, que ocorreu em 1992 e transformou o lance em infração, foi boa providência.

Não perdi a esperança de que a penalização da bola na mão, de tão absurda, será reavaliada. Entretanto, desanimo quando vejo a Fifa aplaudir as decisões da arbitragem em lances como os das citadas finais da Copa do Mundo, em Moscou, e da Champions League, em Madri. 

Por fim: ao contrário das outras duas – estádios vazios por conta da pandemia e obediência a uma determinação da Fifa –, a terceira saúva pode e deve ser repensada pelos mandachuvas do futebol brasileiro: o uso indiscriminado, equivocado e abusivo do VAR.

Antes de qualquer coisa: não sou contra o VAR. Relutei no início e sucumbi ao ver a modernidade irreversivelmente instalada, porém continuo achando inconcebível que se leve mais de dois minutos para tomar uma decisão no campo. Se um pênalti precisa de mais de dois minutos para ser marcado, que não se marque. Se um gol precisa de mais de dois minutos para ser anulado, que não se anule. Demoras superiores a dois minutos são evidências da procura por pelo em ovo, e o VAR não foi feito para isso. 

E o que dizer do anticlímax? Na década de oitenta, a Rede Bandeirantes tinha um programa dominical chamado Gol: O Grande Momento do Futebol. A abertura trazia os acordes iniciais de “Equinoxe 5”, new age brega de Jean Michel Jarre, e o apresentador Alexandre Santos garantia ter em mãos “o maior arquivo de gols da televisão brasileira”. Era uma delícia. Do jeito que está sendo aplicado no Brasil, o VAR mudaria o nome do programa. O gol tem se tornado, frequentemente, o momento mais sensaborão do futebol. 

Outra medida que a Fifa deveria adotar, para ontem, seria a revisão do critério que na prática anula o fim do impedimento na mesma linha. Atualmente, com aqueles traçados em azul e vermelho determinando cientificamente se a unha de um está à frente da do outro, a ideia foi pro saco. 

Entretanto, o maior problema está na importação, para o futebol – esporte em que há contato físico constante e muitas decisões exigem interpretação –, de um recurso que funciona de forma inquestionável e rápida, por exemplo, no vôlei ou no tênis. A câmera registra se a bola bateu fora ou dentro, se alguém invadiu por cima ou por baixo, se houve ou não o toque na mão do bloqueio. Não há o que discutir. No futebol o buraco é mais embaixo, e aí voltamos ao eterno calcanhar de Aquiles: a necessidade de qualificar a arbitragem. O cara pode assistir às jogadas dezenas de vezes e por diversos ângulos, se ele não for um bom intérprete das regras, vai errar. Além do que, nossas transmissões costumam não ajudar, com narradores e comentaristas garantindo que “houve o contato” (narram e comentam futebol ou vôlei?) e repetindo imagens à exaustão, até que se perceba o dedo mindinho do zagueiro central cutucando o umbigo do centroavante. De novo, pelo em ovo.

Para ilustrar, alguns exemplos tirados dessas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, a respeito de decisões que se escoraram nas consultas à tecnologia. Flamengo x Grêmio: discordo do pênalti marcado contra o Grêmio. Flamengo x Botafogo: discordo tanto da anulação do gol de Gabriel quanto do pênalti a favor do Flamengo. Botafogo x Internacional: concordo com a anulação do gol de Mateus Babi, discordo da anulação do gol de Bruno Nazário. (Menor paciência com juízes que, estejam no gramado ou na cabine, ainda caem no conto das simulações dos manhosos jogadores brasileiros.) Santos x Flamengo: concordo com a anulação dos dois gols do Santos. Palmeiras x Internacional: discordo do pênalti a favor do Inter. Santos x Vasco: concordo com a validação do gol de Felipe Bastos, discordo do pênalti contra o Santos. Atlético Mineiro x São Paulo: discordo da anulação do gol são-paulino. 

Ou seja, minha relação com os juízes de futebol não mudou nada. Eles continuam acertando e errando como sempre, eu sigo concordando e discordando como tem acontecido há mais de cinquenta anos. O problema é que, devido à lentidão e à falsa sensação de infalibilidade, o VAR virou uma saúva voraz. 

Mesmo estando fora de cogitação descartá-lo, a CBF precisa urgentemente aprender a lidar com ele.

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