TORCIDA

Violência contra mulheres aumenta em dias de jogos de futebol

Violência contra mulheres aumenta em dias de jogos de futebol
Quando times de futebol entram em campo, cresce a violência contra a mulher. É o que aponta um estudo do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e do Instituto Avon. Os dados revelaram o aumento expressivo nos boletins de ocorrência de ameaça e agressão contra meninas e mulheres nos dias de jogos em cinco capitais…


Quando times de futebol entram em campo, cresce a violência contra a mulher. É o que aponta um estudo do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e do Instituto Avon. Os dados revelaram o aumento expressivo nos boletins de ocorrência de ameaça e agressão contra meninas e mulheres nos dias de jogos em cinco capitais brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre.


Os registros de ameaça quando o time da cidade joga aumentam 23,7%, e os de lesão corporal dolosa, 20,8%.


Se o futebol é compreendido como um espelho da sociedade, a máxima vale também para comportamentos nocivos. “É mais um sintoma do que uma causa”, diz ao R7 Beatriz Accioly, coordenadora das áreas de pesquisa e impacto e enfrentamento às violências contra as meninas e mulheres do Instituto Avon.



O esporte mais popular do país pode funcionar como uma espécie de catalisador das desigualdades de poder entre homens e mulheres, pondera a pesquisadora.


“Entendemos que ele [futebol] ainda está muito relacionado à exaltação de uma determinada masculinidade competitiva, irritadiça, agressiva e violenta, e por isso ainda é necessário um movimento nesse meio que encare esse assunto incômodo”, afirma Beatriz.


Somado a isso, prossegue ela, a rivalidade entre os clubes e os resultados negativos terminam por potencializar emoções como a frustração, “que explodem em forma de comportamentos agressivos contra meninas e mulheres no espaço doméstico”.


Quando a equipe é mandante e joga no próprio estádio, a alta nos casos de lesão chega a 25,9%: “Quando um time joga em casa, naturalmente há uma maior concentração de torcidas e, consequentemente, uma maior mobilização para acompanhar os jogos, seja em estádios, bares ou em encontros com amigos em casa, criando um efeito de efervescência e ebulição de emoções”.


O fenômeno não é isolado: a Inglaterra e os Estados Unidos mostram resultados na mesma direção. Em 2012 e 2013, em dias de jogo da seleção inglesa as situações de violência doméstica cresceram 26% e chegaram a uma alta de 38% quando o time saía derrotado.


Uma pesquisa feita nos Estados Unidos em 2011 mostrou o aumento de 10% nos registros de violência doméstica nas datas de partidas de futebol americano.



Outro estudo similar, realizado no país em 1993, mostrou que, no domingo de Super Bowl – partida que define o título do esporte –, a alta era de 40% em relação aos domingos comuns. Entendida como uma espécie de feriado nacional, destacam os pesquisadores, a data do evento é propícia para o maior consumo de drogas e álcool. Isso poderia, segundo eles, influir no aumento da violência.


Beatriz Accioly afirma que eventos esportivos, em especial aqueles de forte apelo para a população, são catalisadores de emoções, sejam positivas, sejam negativas.


“Essa mistura de sentimentos intensos, que muitas vezes inclui frustrações, transborda para além da esfera esportiva, especialmente no caso de esportes predominantes no universo masculino”, explica.


O estudo mostra que, como ocorre fora do âmbito esportivo, companheiros e ex-companheiros também aparecem de forma expressiva nos dias de jogo – com aumento ligeiramente superior em relação às datas sem partidas.


Nesse cenário, atuais companheiros são 14,1% dos responsáveis pelas ameaças e 16,6% pelos casos de lesão. Os ex-companheiros formam 18,8% dos registros de ameaças, e, quando consideradas as lesões, 11%. Isso quer dizer que aproximadamente um terço das ameaças e um quarto das agressões partiram de pessoas que já se relacionaram com a vítima, como os agressores.


O futebol tão somente não pode ser considerado o responsável por esses atos, destaca Beatriz Accioly.


Observando ocorrências e conflitos violentos entre as próprias torcidas dos clubes, Beatriz destaca também que não se trata de um problema recente. “Pensamos que seria possível que as mulheres também fossem alvo dessas violências como reflexo da desigualdade de gênero, o que acabou sendo comprovado pela pesquisa”, comenta.



Diante disso, ela reforça a necessidade de mobilização da sociedade, inclusive das entidades ligadas ao futebol, contra a violência doméstica:


“Com certeza a violência contra mulheres é um problema estrutural, e é exatamente por isso que é necessária a mobilização de todos os setores sociais para enfrentar e solucionar essa questão”.


Diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno lamenta a escassez de estudos com essa temática no Brasil. “Olhamos pouco para o que ocorre além das quatro linhas, e espero que esse estudo possa induzir um debate sério sobre o tema, ainda mais em ano de Copa do Mundo”, diz Samira.


Perfil das vítimas


O estudo também apresenta recortes etários e étnico-raciais acerca das mulheres que registraram boletins de ocorrência de ameaça e agressão física nas cinco capitais.


Em relação às ameaças, a faixa etária mais comum é a de 30 a 49 anos, enquanto as mulheres de 18 a 29 anos são a maioria das vítimas nos casos de agressão.


O perfil racial acompanha, de modo geral, as configurações populacionais de cada uma das cidades.


No entanto, no caso das agressões, as mulheres negras são proporcionalmente mais vitimadas: elas são 85% em Salvador, 61,4% em Belo Horizonte, 52,1% no Rio de Janeiro, 18,8% em Porto Alegre e 33,8% em São Paulo.


“Vários estudos indicam que mulheres negras costumam vivenciar de forma mais intensa e impune a violência doméstica e familiar”, destaca Beatriz ao lembrar que as vítimas negras são maioria em três das capitais avaliadas.



“Isso ocorre porque vivemos em uma sociedade construída histórica e culturalmente com base na discriminação da população negra, combinada com a desigualdade entre homens e mulheres. Isso dificulta o acesso das mulheres negras a direitos fundamentais”, conclui.

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