BRASILEIRÃO

Você não perde quem se perde de você

Você não perde quem se perde de você
*Wal Reis O lugar era sinistro. Um prédio sem elevador e sem iluminação na escadaria, bem no centro de São Paulo. Enquanto subia, tentando acompanhar a ansiedade da minha amiga, que seguia com uns dez degraus de vantagem. Perguntei sobre como exatamente aquilo iria resolver. Ela me acenou com o papel que tinha nas mãos…

*Wal Reis

O lugar era sinistro. Um prédio sem elevador e sem iluminação na escadaria, bem no centro de São Paulo. Enquanto subia, tentando acompanhar a ansiedade da minha amiga, que seguia com uns dez degraus de vantagem. Perguntei sobre como exatamente aquilo iria resolver. Ela me acenou com o papel que tinha nas mãos e me olhou como se a doida fosse eu:

-“Volta o amor em sete dias”, você não sabe ler?

Ler eu sabia, só não sabia que ela – mesmo com o excesso de crença dos 18 anos – acreditava naquilo. E aquele foi só o primeiro endereço de mais uns cinco para o qual ela me arrastou para reverter sua situação amorosa. Eu não sabia o que me incomodava mais: ver uma não crente frequentando de cartomantes a terreiros de umbanda e, algumas vezes, pagando caro por isso ou o objetivo questionável de – teoricamente – ter ao seu lado, “amarrado”, alguém que dava todos os indícios que já não queria mais estar.  

Eu não discuto forças sobrenaturais. Mas supondo que a magia dê certo, compensa esse sequestro? Sei lá, eu ia acordar todo dia e pensar: fulano está comigo porque quer ou porque eu coloquei a vela no mel em cima do nome dele?

A gente não perde quem se perde da gente. Porque esse tipo de perda implica em um desfazer de laços, em tomar outro rumo e seguir em uma direção que não é mais a sua. Não é um acidente de percurso, mas um livre arbítrio. Você não perde o que não te pertence e é esse o mantra que deve ser entoado quando um relacionamento termina. Cercar a pessoa, perseguir seus passos, exigir que ela permaneça na sua vida faz tanto sentido quanto invadir uma propriedade e acampar ali. É ilegal e geralmente mostra o seu pior lado: aquele que quer tomar posse, que quer ter o amor e não ser amado.

Quem se perde e quer voltar, volta sozinho porque é essa livre e espontânea vontade que vale a pena notar no retorno. E só vale a pena voltar para quem fez valer a pena. Para quem entendeu que se relacionar não é exigir, é conquistar. Não é ameaçar, é persuadir.

*Wal Reis é jornalista, profissional de comunicação corporativa e escreve sobre comportamento e coisas da vida. Blog: www.walreisemoutraspalavras.com.br

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